Treinamento funcional: um novo método ou apenas um novo nome para aquilo que já fazemos há décadas?

Nos dois primeiros artigos desta série discutimos duas alegações frequentemente associadas ao chamado treinamento funcional.

Na primeira parte, analisamos a ideia de que exercícios realizados em máquinas seriam menos “funcionais” do que exercícios executados com pesos livres ou em situações mais complexas.

Na segunda, discutimos a ênfase atribuída ao chamado “core” e a suposição de que exercícios específicos para essa região constituiriam uma característica fundamental para a melhora do desempenho esportivo.

Em ambos os casos encontramos um problema semelhante: características conhecidas do treinamento foram reorganizadas sob uma nova terminologia e posteriormente apresentadas como se pertencessem a uma modalidade distinta.

Isso nos leva à pergunta que encerra esta série:

afinal, o que existe de específico no chamado treinamento funcional?

A questão parece simples, mas possui implicações importantes.

Se um método de treinamento é apresentado como uma categoria própria, seria razoável esperar que apresentasse ao menos alguma combinação distintiva de objetivos, exercícios, princípios de prescrição ou adaptações.

Foi exatamente essa questão que investigamos em uma revisão conceitual publicada em 2022.

O que diferencia o treinamento funcional?

Na revisão Is There Any Non-functional Training? A Conceptual Review, analisamos trabalhos recentes que utilizavam as expressões treinamento funcional, treinamento funcional de alta intensidade e functional fitness.

O objetivo não era determinar se os programas denominados funcionais produziam adaptações.

Naturalmente produziam.

A pergunta era outra:

essas adaptações, exercícios e métodos eram diferentes daqueles já conhecidos e utilizados no treinamento físico e esportivo?

Foram analisadas as definições utilizadas na literatura, as adaptações atribuídas aos programas e os exercícios empregados. A conclusão foi bastante clara: não havia consenso sobre uma definição universal de treinamento funcional; os programas buscavam produzir as mesmas adaptações associadas ao treinamento de força, potência, endurance e flexibilidade; e os exercícios utilizados também eram os mesmos.

Isso cria um problema conceitual fundamental.

Se não conseguimos identificar uma adaptação exclusiva, um exercício exclusivo ou um princípio de treinamento exclusivo, qual é exatamente a característica que permite classificar o treinamento funcional como uma modalidade distinta?

Os exercícios “funcionais” já estavam no treinamento esportivo

Quando analisamos os exercícios utilizados nos programas classificados como funcionais, encontramos:

agachamentos, exercícios de força, levantamento de peso olímpico, pliometria, corrida, remo, exercícios com o peso corporal, sprints, ginástica e diferentes formas de treinamento cardiovascular.

Nada disso surgiu com o treinamento funcional.

Na própria revisão, mostramos que os estudos analisados utilizavam exercícios multiarticulares, levantamento de peso olímpico, exercícios de força, pliometria, corrida, remo, agachamentos, flexões e sprints.

Esses exercícios fazem parte da preparação física de atletas há décadas.

Treinadores já utilizavam combinações de treinamento de força, potência e endurance muito antes da popularização da expressão “treinamento funcional”.

Da mesma maneira, exercícios pliométricos, movimentos balísticos, levantamento olímpico e suas variações são componentes consolidados do treinamento de potência.

Corrida contínua, treinamento intervalado, HIIT, treinamento de sprints repetidos e diferentes formas de treinamento de endurance também possuem longa tradição científica e prática.

Portanto, utilizar esses exercícios em uma sessão e posteriormente denominá-los “funcionais” não cria um novo método.

Muda apenas sua classificação.

Alta intensidade também não transforma o treinamento em algo novo

Uma das derivações do conceito foi o chamado High-Intensity Functional Training — HIFT.

Novamente surge o mesmo problema.

Programas classificados como HIFT são frequentemente caracterizados por alto volume, elevada intensidade, intervalos curtos e exercícios multiarticulares.

Mas essa configuração já existia na preparação esportiva.

Nossa revisão mostrou que os próprios exercícios apresentados como características desses programas — levantamento olímpico, HIIT, pliometria e exercícios balísticos — já eram utilizados por atletas de alto rendimento em determinadas fases da periodização.

Além disso, intensidade não constitui uma modalidade de exercício.

Ela é uma variável do treinamento.

Podemos realizar treinamento de força em diferentes intensidades.

Podemos correr em diferentes intensidades.

Podemos executar treinamento intervalado em diferentes intensidades.

Portanto, acrescentar o termo “alta intensidade” a uma categoria conceitualmente mal delimitada não resolve o problema.

As adaptações também não são novas

A análise das adaptações atribuídas ao treinamento funcional produz resultado semelhante.

Força.

Potência.

Resistência.

Velocidade.

Agilidade.

Equilíbrio.

Coordenação.

Flexibilidade.

Melhora da aptidão física.

Esses resultados aparecem repetidamente nas definições analisadas.

Mas força, potência e endurance possuem definições fisiológicas e mecânicas próprias e são desenvolvidas há muito tempo por métodos de treinamento específicos.

Se um programa aumenta força porque contém treinamento resistido, o mecanismo relevante é o treinamento de força.

Se aumenta potência por meio de saltos, exercícios balísticos ou levantamento olímpico, estamos utilizando treinamento de potência.

Se aumenta a capacidade cardiorrespiratória por meio de corrida, remo ou exercícios intervalados, estamos utilizando treinamento de endurance.

Chamar a combinação dessas modalidades de “funcional” não cria uma nova adaptação fisiológica.

“Treinar várias capacidades ao mesmo tempo” também não é novidade

Outra característica frequentemente apresentada como diferenciadora seria o desenvolvimento simultâneo de diferentes capacidades físicas.

Mas isso também não é exclusivo.

O treinamento esportivo utiliza há décadas diferentes formas de treinamento combinado e concorrente.

Atletas de esportes coletivos, modalidades de combate e diversas provas intermitentes precisam simultaneamente de força, potência e capacidade aeróbia.

Consequentemente, seus programas sempre combinaram essas capacidades.

Nossa revisão observou que programas denominados funcionais apresentam grande sobreposição com força, potência, endurance e flexibilidade, justamente porque suas características já pertencem ao repertório tradicional da preparação física.

O problema, portanto, não está na combinação.

Está em apresentar essa combinação como uma modalidade nova.

E então chegamos à pergunta inevitável: existe treinamento “não funcional”?

Se funcional significa possuir uma função, uma finalidade ou contribuir para determinado objetivo, a própria expressão começa a se tornar problemática.

Qual seria o treinamento não funcional?

Um programa de hipertrofia destinado a um fisiculturista possui uma função.

Um programa de força máxima destinado a um powerlifter possui uma função.

Um programa de endurance destinado a um maratonista possui uma função.

Um programa destinado a melhorar a capacidade de levantar-se de uma cadeira em um idoso possui uma função.

Um protocolo de reabilitação para recuperar uma tarefa motora possui uma função.

Até mesmo um programa destinado exclusivamente à recreação pode cumprir perfeitamente sua finalidade.

Foi justamente por esse motivo que concluímos, em 2022, que não existe racionalidade clara para dividir o treinamento em “funcional” e “tradicional”. Se os métodos, exercícios e adaptações são os mesmos, o termo se torna redundante.

A questão, entretanto, não terminou nesse trabalho.

Em 2025, um consenso internacional tentou definir treinamento funcional

Alguns anos depois, participamos de uma nova investigação, agora utilizando um método Delphi internacional.

O objetivo foi justamente tentar produzir uma definição consensual para o treinamento funcional.

Especialistas de diferentes países e áreas de atuação foram convidados a discutir o conceito em sucessivas rodadas de avaliação.

O resultado final foi a seguinte definição, aqui traduzida:

Treinamento funcional é uma abordagem de intervenção física que contribui para a melhora do desempenho humano de acordo com objetivos individuais, no esporte, vida diária, reabilitação ou fitness, considerando a especificidade da tarefa e a resposta individual de cada pessoa.

Essa definição pode parecer razoável.

E é.

O problema é justamente esse.

Ela descreve basicamente o que deveria ser um treinamento adequadamente prescrito.

Um programa de treinamento deve considerar objetivos.

Deve considerar especificidade.

Deve considerar características individuais.

Deve buscar melhorar determinada forma de desempenho.

Esses princípios não nasceram com o treinamento funcional.

São fundamentos clássicos da teoria do treinamento.

A redundância foi o principal resultado do consenso

O aspecto mais interessante do estudo Delphi talvez não seja a definição produzida.

É aquilo que aconteceu durante sua elaboração.

Entre todos os temas levantados pelo painel, redundância foi o de maior concordância: 92,3% dos especialistas.

Especificidade e individualização apareceram em aproximadamente 61,5%, enquanto desempenho humano e preparação para atividades diárias apareceram em cerca de 53,8%. O próprio diagrama apresentado no artigo mostra a redundância como o domínio com maior nível de concordância.

Isso é particularmente relevante porque especificidade e individualização também não pertencem ao treinamento funcional.

São princípios fundamentais do treinamento físico.

O próprio artigo reconhece que essas características estão descritas há décadas na literatura de treinamento e que sua presença não justifica, por si só, a existência de uma categoria denominada treinamento funcional.

Em outras palavras:

quanto mais tentamos definir treinamento funcional de maneira cientificamente defensável, mais ele se aproxima simplesmente da definição de treinamento.

O consenso chegou a uma consequência importante

A discussão avançou ainda mais.

O painel observou que a definição proposta apresentava grande sobreposição com o conceito geral de treinamento e sugeriu que treinamento funcional poderia ser entendido simplesmente como resultado da seleção, combinação e aplicação de métodos de treinamento a determinado indivíduo.

O próprio artigo afirma que isso reflete o conceito geral de treinamento e, portanto, que não haveria uma utilidade real para “treinamento funcional” como conceito separado.

Essa conclusão é importante.

Não estamos dizendo que os exercícios chamados de funcionais não funcionam.

Não estamos dizendo que os programas não produzem adaptações.

Estamos dizendo algo completamente diferente:

eles funcionam pelos mesmos princípios fisiológicos, biomecânicos e metodológicos que explicam os efeitos de qualquer outro programa de treinamento.

Uma máquina pode ser funcional?

Essa discussão também resolve uma controvérsia abordada na primeira parte desta série.

Se funcionalidade depende da relação entre o estímulo e o objetivo da pessoa, não existe razão para definir funcionalidade pela presença ou ausência de uma máquina.

O consenso de 2025 propôs explicitamente que não se deveria classificar um treinamento como funcional com base no equipamento utilizado, no número de articulações envolvidas, no número de músculos recrutados ou nos planos de movimento.

A avaliação deveria considerar a proximidade entre o treinamento, os objetivos, as características individuais e a especificidade da tarefa.

Portanto, uma extensão de joelhos em máquina pode possuir elevada funcionalidade para determinada necessidade.

Um agachamento sobre uma superfície instável pode possuir pouca funcionalidade para outra.

A propriedade não está no exercício isoladamente.

Está na relação entre o estímulo e o objetivo.

E um exercício para o “core”?

O mesmo raciocínio resolve a questão discutida na segunda parte.

Um exercício específico para o tronco pode ser útil se a capacidade desenvolvida for importante para determinada tarefa.

Mas isso não o torna mais funcional por definição.

Da mesma maneira, um agachamento, levantamento terra, sprint, salto, remada ou exercício em máquina também pode contribuir para o objetivo do atleta.

Não existe uma propriedade biológica que transforme um exercício em “funcional” simplesmente porque ele utiliza várias articulações, exige estabilização ou ocorre em mais de um plano.

Essas são apenas características mecânicas do exercício.

Sua relevância depende do objetivo.

O problema histórico: confundir aparência com função

Boa parte da popularização do treinamento funcional criou uma associação visual:

máquinas seriam “tradicionais”.

Pesos livres seriam mais funcionais.

Exercícios unilaterais seriam mais funcionais.

Movimentos multiplanares seriam mais funcionais.

Instabilidade seria mais funcional.

Exercícios que lembram gestos esportivos seriam mais funcionais.

Mas nenhuma dessas características determina isoladamente a transferência de treinamento.

Um exercício pode parecer semelhante ao esporte e produzir pouco da adaptação necessária.

Outro pode não se parecer visualmente com o gesto esportivo e desenvolver exatamente uma capacidade limitante para aquele desempenho.

Especificidade não significa necessariamente imitação.

Esse é um ponto fundamental.

Treinamento esportivo já fazia tudo isso

Talvez essa seja a questão que melhor encerra esta série.

Movimentos multiarticulares?

Já existiam.

Treinamento em diferentes planos?

Já existia.

Exercícios unilaterais?

Já existiam.

Levantamento olímpico?

Já existia.

Pliometria?

Já existia.

Treinamento balístico?

Já existia.

Sprints?

Já existiam.

Treinamento intervalado?

Já existia.

Combinação de força e endurance?

Já existia.

Treinamento específico para demandas esportivas?

Naturalmente, já existia.

Programas denominados treinamento funcional utilizam precisamente essas ferramentas. Nossa revisão de 2022 encontrou que FT, HIFT e functional fitness apresentavam diversas semelhanças com métodos empregados por atletas de elite há décadas.

Portanto, não estamos diante da descoberta de um novo princípio de treinamento.

Estamos, em grande parte, diante de uma nova terminologia aplicada a métodos antigos.

Então devemos abandonar completamente a palavra “funcional”?

Aqui existe uma distinção útil.

Como linguagem informal, a expressão pode ter alguma utilidade.

Um treinador pode dizer a um atleta que determinado exercício possui uma função específica dentro do programa.

Pode discutir maior ou menor transferência para determinado objetivo.

Pode falar em funcionalidade como uma propriedade relativa ao contexto.

Nossa revisão de 2022 inclusive reconheceu que o termo poderia permanecer como linguagem cotidiana entre treinadores e atletas.

O problema surge quando “treinamento funcional” é tratado como uma modalidade fisiologicamente distinta.

O consenso de 2025 propôs uma solução interessante: em vez de dividir exercícios em funcionais e não funcionais, poderíamos pensar em um continuum de funcionalidade.

Nesse modelo, a funcionalidade depende da proximidade entre o programa, os objetivos, as necessidades, as características individuais e a tarefa que se deseja melhorar.

Essa concepção é muito diferente da narrativa comercial de que determinados equipamentos, exercícios ou ambientes seriam intrinsecamente funcionais.

A pergunta correta não é “isso é funcional?”

Talvez a principal consequência prática desta discussão seja abandonar essa pergunta.

Em vez de perguntar:

“este exercício é funcional?”

deveríamos perguntar:

qual adaptação quero produzir?

Qual capacidade precisa melhorar?

Força?

Potência?

Velocidade?

Endurance?

Mobilidade?

Coordenação?

Capacidade de executar determinada tarefa?

Depois disso, podemos perguntar:

qual exercício, carga, volume, velocidade, amplitude e frequência são mais adequados para produzir essa adaptação neste indivíduo?

Isso é prescrição de treinamento.

Não precisamos de uma categoria adicional para descrevê-la.

Conclusão

Depois de três artigos, podemos finalmente voltar à questão central.

Máquinas não são necessariamente menos funcionais.

Exercícios direcionados ao core não constituem automaticamente uma forma superior ou indispensável de preparação esportiva.

E os métodos apresentados como características do chamado treinamento funcional já fazem parte do treinamento físico e esportivo há décadas.

Nossa revisão conceitual de 2022 encontrou ausência de definição universal, ausência de adaptações exclusivas e ausência de exercícios exclusivos do treinamento funcional.

O consenso internacional publicado em 2025 chegou a uma conclusão complementar: apesar de ser possível produzir uma definição, essa definição se sobrepõe substancialmente ao conceito geral de treinamento. A redundância foi o tema de maior concordância do painel, e os próprios autores propuseram evitar uma separação conceitual rígida entre treinamento funcional e treinamento em geral.

Talvez, portanto, o maior problema do chamado treinamento funcional nunca tenha sido seus exercícios.

Agachamentos funcionam.

Saltos funcionam.

Treinamento de força funciona.

Sprints funcionam.

Treinamento intervalado funciona.

Exercícios em máquinas funcionam.

Exercícios específicos para o tronco também podem funcionar.

Cada um dentro de determinado objetivo, contexto e prescrição.

O problema surge quando métodos já existentes são reorganizados, recebem um novo rótulo e passam a ser apresentados como uma categoria superior ou distinta de treinamento.

Depois de décadas de teoria e prática do treinamento esportivo, talvez não precisássemos inventar uma nova modalidade.

Precisávamos apenas continuar fazendo aquilo que bons treinadores sempre fizeram:

identificar a capacidade que precisa ser desenvolvida, selecionar o estímulo apropriado e ajustar o treinamento ao indivíduo e ao objetivo.

Isso já tinha um nome.

Treinamento.

Referências

Ide BN, Silvatti AP, Marocolo M, Santos CPC, Silva BVC, Oranchuk DJ, Mota GR. Is There Any Non-functional Training? A Conceptual Review. Frontiers in Sports and Active Living. 2022;3:803366. doi:10.3389/fspor.2021.803366.

Ide BN, Marocolo M, Santos CPC, Silva BVC, Silvatti AP, Simim MAM, Oranchuk DJ, de Agostini GG, Mota GR. Commentary: “You're Only as Strong as Your Weakest Link”: A Current Opinion About the Concepts and Characteristics of Functional Training. Frontiers in Physiology. 2021;12:744144.

Pereira HV, Teixeira DS, Fisher J, Fleck SJ, Helms E, Ide BN, Izquierdo M, Nedergaard A, Phillips SM, Pinto RS, Plotkin DL, Turner AN, Schoenfeld BJ. International consensus on the definition of functional training: Modified e-Delphi method. Journal of Sports Sciences. Published online March 18, 2025. doi:10.1080/02640414.2025.2477393.