A combinação do treinamento de força com o treinamento de endurance é uma prática comum tanto no treinamento esportivo quanto em programas destinados à melhoria da saúde e da aptidão física. Entretanto, evidências experimentais demonstram que essa combinação pode, em determinadas circunstâncias, comprometer algumas adaptações neuromusculares quando comparada ao treinamento de força realizado isoladamente.
Esse fenômeno, conhecido como efeito de interferência, tem sido investigado desde o estudo clássico de Hickson, publicado em 1980.
Em 2014, Fyfe, Bishop e Stepto publicaram uma importante revisão na revista Sports Medicine, discutindo os possíveis mecanismos moleculares responsáveis pela interferência e o papel de diferentes variáveis do treinamento, como a ordem dos exercícios, o intervalo de recuperação, a duração e a frequência das sessões e a modalidade de endurance utilizada.
O treinamento de força promove adaptações neurais e morfológicas que contribuem para o aumento da capacidade de produção de força muscular. Entre essas adaptações, destaca-se a hipertrofia das fibras musculares, associada ao aumento da síntese de proteínas contráteis.
Por outro lado, o treinamento de endurance estimula adaptações relacionadas ao metabolismo energético, incluindo o aumento da densidade mitocondrial, da capacidade oxidativa e de outras características que favorecem a manutenção do exercício por períodos prolongados.
Essas adaptações são reguladas, em parte, por diferentes mecanismos de sinalização intracelular.
No treinamento de força, destaca-se a participação do complexo mTORC1, envolvido na regulação da síntese proteica. Já no treinamento de endurance, vias como AMPK, CaMKII e PGC-1α participam da regulação de adaptações metabólicas e da biogênese mitocondrial.
Entretanto, a participação dessas vias não é exclusiva de uma modalidade de exercício, e suas respostas são influenciadas pelas características do estímulo e pelas condições fisiológicas do indivíduo.
Uma das hipóteses mais difundidas para explicar a interferência no treinamento concorrente envolve uma possível interação negativa entre AMPK e mTORC1.
A AMPK participa da regulação do estado energético celular e pode, em determinadas condições experimentais, inibir a sinalização mediada por mTORC1, reduzindo processos associados à síntese proteica.
Com base nesses mecanismos, foi proposto que a realização de exercícios de endurance poderia comprometer as respostas anabólicas induzidas pelo treinamento de força.
Entretanto, Fyfe e colaboradores destacaram uma limitação importante dessa interpretação: grande parte das evidências que fundamentavam essa hipótese havia sido obtida em culturas celulares ou modelos animais, frequentemente submetidos a condições experimentais pouco representativas do exercício realizado por seres humanos.
Além disso, estudos com humanos demonstraram que exercícios de endurance também podem ativar componentes da via mTORC1, enquanto exercícios de força podem estimular a AMPK.
Essas observações questionam a interpretação simplificada de que existiria uma espécie de interruptor molecular no qual a ativação de uma via necessariamente impediria a ativação da outra.
A coexistência de respostas moleculares não significa, obrigatoriamente, antagonismo funcional entre as adaptações.
Um dos aspectos mais relevantes da revisão foi a análise dos estudos que investigaram diretamente as respostas moleculares após sessões combinadas de força e endurance.
Os resultados foram inconsistentes.
Algumas investigações observaram alterações em marcadores relacionados à síntese e à degradação de proteínas quando diferentes modalidades eram realizadas em sequência. Entretanto, outros estudos não identificaram redução da sinalização anabólica ou das taxas de síntese proteica muscular após exercícios concorrentes.
Em determinadas condições, a realização combinada dos exercícios chegou a produzir respostas moleculares mais pronunciadas do que aquelas observadas após uma única modalidade.
Um exemplo importante foi a ausência de comprometimento da sinalização relacionada à mTORC1 quando o treinamento de força foi realizado após uma sessão de endurance, respeitando um intervalo de recuperação de seis horas.
Outro estudo demonstrou que a combinação das modalidades estimulou a síntese de proteínas miofibrilares e mitocondriais em homens sedentários de meia-idade.
Esses resultados não permitem concluir que o treinamento concorrente potencialize necessariamente as adaptações musculares. Contudo, demonstram que não existe uma resposta molecular de interferência uniforme e inevitável após a combinação das modalidades.
A revisão destaca uma questão metodológica fundamental.
Grande parte dos estudos sobre os mecanismos moleculares do treinamento concorrente investigou alterações na fosforilação de proteínas, expressão gênica ou outros indicadores durante as primeiras horas após o exercício.
Entretanto, modificações agudas nesses marcadores não necessariamente representam alterações proporcionais nas taxas de síntese proteica ou na magnitude da hipertrofia muscular após semanas de treinamento.
A ativação de determinada via molecular pode fornecer informações sobre processos fisiológicos desencadeados pelo exercício, mas não constitui, isoladamente, uma medida direta da adaptação crônica.
Além disso, a maioria das investigações analisadas acompanhou as respostas moleculares durante períodos relativamente curtos de recuperação.
Consequentemente, os autores questionaram a validade de extrapolar respostas observadas poucas horas após uma sessão para explicar modificações na força, potência ou massa muscular decorrentes de programas prolongados.
Essa limitação é especialmente relevante porque o fenômeno de interferência pode manifestar-se somente após várias semanas de treinamento.
Além das possíveis interações moleculares, Fyfe e colaboradores discutiram fatores que poderiam modificar a magnitude do fenômeno de interferência.
1. Ordem dos exercícios
A realização de endurance antes do treinamento de força pode produzir fadiga residual e comprometer o desempenho durante os exercícios subsequentes.
Entretanto, a literatura analisada não demonstrou de maneira consistente que uma determinada ordem seria sempre superior para todas as adaptações.
2. Intervalo entre as sessões
A proximidade temporal entre sessões de força e endurance pode influenciar o desempenho neuromuscular, a recuperação e as respostas metabólicas.
Alguns resultados sugeriram benefícios de intervalos maiores entre as modalidades. Contudo, as evidências ainda eram insuficientes para estabelecer um intervalo universal capaz de evitar a interferência.
3. Frequência e duração do treinamento de endurance
Estudos com maior frequência semanal de endurance apresentaram, em determinadas condições, maior comprometimento dos ganhos de força e hipertrofia.
Entretanto, os autores reconheceram a dificuldade de determinar se esses resultados estavam associados especificamente à frequência das sessões ou à maior duração acumulada dos exercícios.
4. Características dos esforços de endurance
Exercícios intervalados com elevada potência mecânica podem produzir maior perturbação metabólica e fadiga residual do que determinadas sessões contínuas.
Contudo, os estudos disponíveis não permitiam concluir que exercícios intervalados necessariamente provocariam maior interferência nas adaptações crônicas.
5. Modalidade de endurance
A corrida apareceu com maior frequência nos estudos que identificaram interferência quando comparada ao ciclismo.
Uma das hipóteses apresentadas foi que as características mecânicas da corrida poderiam produzir maior dano muscular e fadiga residual, comprometendo determinadas respostas ao treinamento de força.
Entretanto, não havia evidências suficientes para estabelecer uma relação causal definitiva entre modalidade e magnitude da interferência.
Uma contribuição importante da revisão foi reconhecer que o comprometimento das adaptações pode decorrer de diferentes mecanismos, não necessariamente relacionados à inibição direta de vias intracelulares.
A fadiga acumulada, a menor disponibilidade de substratos energéticos e a redução da capacidade de produção de força durante as sessões podem modificar o estímulo efetivamente realizado.
Consequentemente, reduções nas adaptações poderiam ocorrer mesmo na ausência de uma interferência molecular direta e demonstrável.
Essa perspectiva amplia a interpretação do fenômeno, incorporando aspectos mecânicos, neuromusculares e metabólicos à discussão.
A revisão de Fyfe e colaboradores demonstra que, embora o fenômeno de interferência tenha sido observado em diferentes investigações experimentais, seus mecanismos fisiológicos permaneciam insuficientemente esclarecidos.
A hipótese de antagonismo entre AMPK e mTORC1 é biologicamente plausível em determinadas condições, mas não representa uma explicação universal e experimentalmente consolidada para os resultados observados em humanos.
Os autores destacam que a combinação de força e endurance pode produzir diferentes respostas conforme as características dos estímulos, o estado de treinamento dos participantes, a disponibilidade nutricional e as condições de recuperação.
Portanto, não é adequado utilizar exclusivamente alterações em marcadores moleculares agudos para prever ou justificar adaptações musculares crônicas.
A interpretação do treinamento concorrente exige considerar tanto os mecanismos fisiológicos quanto os resultados efetivamente observados sobre força, potência, massa muscular e capacidade de endurance.
Referência bibliográfica
Fyfe, J. J., Bishop, D. J., & Stepto, N. K. (2014). Interference between concurrent resistance and endurance exercise: Molecular bases and the role of individual training variables. Sports Medicine, 44(6), 743–762. https://doi.org/10.1007/s40279-014-0162-1