Treinamento concorrente: o estudo clássico de Hickson sobre a interferência no desenvolvimento da força muscular

  • 31-10-2026

Treinamento concorrente: o estudo clássico de Hickson sobre a interferência no desenvolvimento da força muscular

Publicado em 1980, o estudo de Robert Hickson é considerado um dos trabalhos pioneiros na investigação do chamado efeito de interferência no treinamento concorrente. A pesquisa examinou as adaptações produzidas pelo treinamento de força e endurance realizados isoladamente ou de maneira combinada, buscando identificar possíveis diferenças no desenvolvimento da força muscular e do consumo máximo de oxigênio (VO₂max).

Metodologia e organização dos programas de treinamento

Participaram do estudo 23 adultos jovens, distribuídos em três grupos experimentais: treinamento de força (n = 8), treinamento de endurance (n = 8) e treinamento combinado de força e endurance (n = 7).

Os participantes tinham entre 18 e 37 anos e não realizavam treinamento físico regular havia pelo menos três meses.

Os programas tiveram duração de dez semanas, com diferentes frequências semanais de exercícios.

Grupo 1 — Treinamento de força

Os participantes realizaram cinco sessões semanais de treinamento de força, com duração aproximada de 30 a 40 minutos por sessão. O programa foi estruturado para promover aumentos na força muscular dos membros inferiores.

Em três dias da semana, os participantes realizavam:

  • Agachamento paralelo: 5 séries de 5 repetições.

  • Flexão dos joelhos: 3 séries de 5 repetições.

  • Extensão dos joelhos: 3 séries de 5 repetições.

Nos outros dois dias, eram realizados:

  • Leg press: 3 séries de 5 repetições.

  • Elevação dos calcanhares: 3 séries de 20 repetições.

Adicionalmente, nos dias 2 e 4, foram incluídos exercícios de levantamento terra e abdominais, com o objetivo de fortalecer a musculatura do tronco. O artigo não especificou as séries e repetições desses exercícios complementares.

Progressão das cargas: inicialmente, os participantes utilizaram cargas correspondentes a aproximadamente 80% da carga máxima. Posteriormente, as cargas foram progressivamente aumentadas conforme os ganhos de força, buscando manter a maior resistência possível para o número de repetições estabelecido.

O intervalo de recuperação entre as séries foi de três minutos.

Todos os treinamentos foram supervisionados.

Grupo 2 — Treinamento de endurance

Os participantes realizaram seis sessões semanais, alternando três sessões de treinamento intervalado em cicloergômetro e três sessões de corrida contínua.

Treinamento intervalado em cicloergômetro

O programa foi composto por:

  • 6 esforços de 5 minutos.

  • 2 minutos de recuperação entre os esforços.

  • Potência mecânica correspondente a uma exigência metabólica próxima ao VO₂max.

À medida que os participantes melhoravam sua capacidade de exercício, a potência mecânica aplicada no cicloergômetro era aumentada para manter o esforço próximo ao consumo máximo de oxigênio.

O protocolo compreendia 30 minutos de exercício intervalado, além dos períodos de recuperação.

Treinamento de corrida contínua

Nos dias alternados, os participantes realizavam corrida contínua, sendo orientados a correr na maior velocidade possível durante o tempo estabelecido.

A duração das sessões foi progressivamente aumentada:

  • Semana 1: 30 minutos.

  • Semana 2: 35 minutos.

  • Semanas 3 a 10: 40 minutos.

Portanto, o programa de endurance envolveu tanto esforços intervalados próximos ao VO₂max quanto esforços contínuos de duração progressivamente maior.

Grupo 3 — Treinamento combinado de força e endurance

Os participantes desse grupo realizaram integralmente os mesmos programas dos grupos de força e endurance, mantendo os exercícios, as frequências semanais e as características dos esforços.

Consequentemente, o programa compreendia:

  • 5 sessões semanais de treinamento de força.

  • 3 sessões semanais de treinamento intervalado em cicloergômetro.

  • 3 sessões semanais de corrida contínua.

Total: 11 sessões semanais de treinamento.

Nos dias em que ambas as modalidades eram realizadas, havia geralmente um intervalo de pelo menos duas horas de repouso ou inatividade entre elas. Entretanto, um dos participantes realizou sessões separadas por apenas 15 a 30 minutos.

Assim, os indivíduos do grupo combinado foram submetidos a uma quantidade substancialmente maior de exercício do que aqueles que realizaram apenas uma modalidade.

Esse aspecto metodológico é particularmente relevante para a interpretação dos resultados, pois o estudo não igualou a quantidade total de exercício entre os grupos.

Avaliações realizadas

A força muscular foi avaliada por meio da maior carga levantada em uma repetição no agachamento paralelo (1RM).

Nos grupos de força isolada e combinado, a força foi avaliada antes do treinamento e semanalmente durante as dez semanas. Em um participante do grupo combinado, a extensão dos joelhos substituiu o agachamento nas avaliações semanais devido a problemas musculares leves na região posterior da coxa.

No grupo de endurance, a força foi avaliada antes e após o programa de treinamento.

O VO₂max foi determinado por testes progressivos realizados em cicloergômetro e esteira. Nos grupos de endurance isolado e combinado, as avaliações ocorreram antes do treinamento, após cinco semanas e ao final das dez semanas.

Também foram realizadas avaliações de massa corporal, circunferência da coxa e dobras cutâneas.

Principais resultados

Desenvolvimento da força muscular

Durante as primeiras sete semanas, os grupos de força isolada e combinado apresentaram aumentos semelhantes na força muscular.

Entretanto, a partir desse período, as respostas começaram a divergir.

Grupo de força isolada: os participantes continuaram aumentando progressivamente a força durante as dez semanas, alcançando uma melhora média de 44%, correspondente a aproximadamente 42 kg.

Grupo combinado: a força aumentou aproximadamente 34% até a sétima semana, equivalente a cerca de 30 kg. Posteriormente, os valores estabilizaram e começaram a diminuir durante a nona e a décima semanas.

Ao final do programa, o aumento acumulado da força no grupo combinado foi de aproximadamente 25%, equivalente a 22 kg.

Portanto, apesar de ambos os grupos apresentarem ganhos em relação aos valores iniciais, o comportamento temporal foi diferente. Enquanto o grupo de força isolada continuou melhorando, o grupo combinado apresentou uma redução da força após atingir seu maior valor na sétima semana.

O grupo que realizou exclusivamente endurance não apresentou aumentos significativos na força muscular.

Adaptações do consumo máximo de oxigênio

Diferentemente do comportamento observado na força muscular, o VO₂max apresentou aumentos semelhantes entre os grupos de endurance isolado e combinado.

Após dez semanas, os aumentos médios relativos foram:

AvaliaçãoEndurance isoladoForça + endurance
VO₂max no cicloergômetro+27%+24%
VO₂max na esteira+19%+18%

Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto à trajetória de aumento do VO₂max.

Esses resultados indicam que, nas condições experimentais investigadas, a combinação com o treinamento de força não comprometeu de maneira detectável as adaptações do consumo máximo de oxigênio.

Alterações antropométricas

A circunferência da coxa aumentou nos grupos de força isolada e combinado, enquanto permaneceu praticamente inalterada no grupo de endurance.

A massa corporal aumentou no grupo de força, diminuiu no grupo de endurance e apresentou pouca alteração no grupo combinado.

Entretanto, não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nessas variáveis antropométricas.

Discussão: o que os resultados realmente demonstram?

O principal resultado do estudo foi a identificação de respostas distintas no desenvolvimento da força muscular quando o treinamento de força foi realizado isoladamente ou associado ao treinamento de endurance.

A interferência não ocorreu imediatamente. Nas primeiras semanas, os ganhos de força foram semelhantes, mas a continuidade das adaptações foi comprometida no grupo combinado após aproximadamente sete semanas.

Uma possível explicação seria a fadiga acumulada decorrente da elevada frequência de exercícios. Afinal, os participantes do grupo combinado realizavam onze sessões semanais, incluindo exercícios de força, corrida contínua e esforços intervalados próximos ao VO₂max.

Hickson discutiu essa possibilidade, mas observou que o trabalho realizado no cicloergômetro continuava aumentando, mesmo nas semanas em que a força muscular diminuía.

Entretanto, essa observação não permite descartar a fadiga acumulada como possível fator contribuinte. A manutenção das adaptações do VO₂max não demonstra necessariamente ausência de fadiga neuromuscular ou recuperação completa entre as sessões.

Outra questão importante é que o estudo não investigou diretamente os mecanismos fisiológicos responsáveis pela interferência. Portanto, não é possível estabelecer, com base nesses resultados, se as diferenças decorreram de alterações neuromusculares, processos relacionados à recuperação ou interações entre adaptações específicas das duas modalidades.

Além disso, os resultados devem ser interpretados considerando algumas características do delineamento experimental: número reduzido de participantes, ausência de treinamento regular nos meses anteriores, elevada frequência semanal de exercícios e ausência de equiparação da quantidade total de exercício entre os grupos.

Assim, o estudo demonstrou que a combinação dos programas investigados comprometeu a continuidade do desenvolvimento da força muscular, mas não permite concluir que todas as formas de treinamento simultâneo de força e endurance produzam o mesmo efeito.

Conclusão

O estudo de Hickson constitui uma referência histórica para a compreensão do efeito de interferência no treinamento concorrente.

Seus resultados mostraram que a combinação de um programa de força realizado cinco vezes por semana com um programa de endurance realizado seis vezes por semana produziu ganhos de força inicialmente semelhantes aos do treinamento isolado, seguidos de estabilização e redução da força nas semanas finais.

Em contrapartida, os aumentos no VO₂max foram semelhantes entre os participantes que realizaram endurance isoladamente e aqueles que combinaram as duas modalidades.

A principal contribuição do estudo não foi demonstrar uma incompatibilidade fisiológica absoluta entre força e endurance, mas fornecer evidências de que a organização e as características dos programas combinados podem modificar o desenvolvimento das adaptações ao treinamento.

Referência bibliográfica

Hickson RC. Interference of strength development by simultaneously training for strength and endurance. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology. 1980;45:255–263.

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