A sincronização de unidades motoras — definida como a tendência de duas ou mais unidades motoras dispararem potencialmente ao mesmo tempo — tem sido tema de intenso debate na neurofisiologia do movimento humano. No artigo publicado por John G. Semmler (2002) na Exercise and Sport Sciences Reviews, o autor revisa evidências sugerindo que esse fenômeno não é meramente uma consequência incidental das conexões divergentes no sistema nervoso central, mas sim uma estratégia neural deliberada com implicações funcionais para o desempenho neuromuscular.
A principal técnica utilizada para quantificar a sincronização entre unidades motoras é a análise de correlação cruzada dos tempos de disparo de pares de unidades motoras. Um pico na região central do histograma de correlação indica a existência de entradas sinápticas comuns às unidades motoras analisadas. Outra abordagem complementar é a análise no domínio da frequência (coerência), que revela o grau de periodização dos comandos presinápticos.
Estudos com pacientes com esclerose lateral amiotrófica e com a síndrome de Klippel-Feil demonstraram que a integridade da via corticoespinal é crucial para a sincronização entre unidades motoras. Além disso, estímulos periféricos (como a vibração muscular) não parecem influenciar significativamente esse fenômeno, reforçando a hipótese de que a sincronização resulta do compartilhamento de axônios corticoespinais ramificados, especialmente em contrações isométricas de baixa força.
Sim. Estudos demonstraram que indivíduos submetidos ao treinamento de força apresentam maiores índices de sincronização entre unidades motoras quando comparados a não treinados ou músicos profissionais — estes últimos, por sua vez, apresentaram os menores níveis de sincronização, especialmente nas mãos mais utilizadas para movimentos finos. Em um estudo com 544 pares de unidades motoras, a força da sincronização foi maior em levantadores de peso do que em músicos e indivíduos não treinados, indicando uma adaptação neural específica ao tipo de tarefa.
Apesar de não haver evidência robusta de que a sincronização aumente diretamente a força máxima voluntária, há indícios de que ela favoreça o aumento da taxa de desenvolvimento de força (RFD) — especialmente em tarefas balísticas. No estudo de Van Cutsem et al. (1998), o treinamento dinâmico por 12 semanas resultou em aumentos no RFD e alterações no padrão de ativação das unidades motoras, sugerindo que a sincronização poderia ser uma das variáveis envolvidas.
Além de atuar no controle de um único músculo, a sincronização parece ter um papel importante na coordenação entre músculos distintos, especialmente em sinergias funcionais (como músculos abdominais durante a flexão de tronco). Até 70% das entradas sinápticas recebidas por músculos funcionalmente relacionados podem ser comuns, evidenciando um mecanismo neural compartilhado para a coativação muscular.
Simulações computacionais mostram que níveis elevados de sincronização entre unidades motoras aumentam significativamente a flutuação da força, mesmo sem alterar o número total de potenciais de ação. Entretanto, estudos com humanos não encontraram forte correlação entre a amplitude da sincronização e o tremor fisiológico, o que indica que esse efeito pode depender de como a sincronização é quantificada (tempo vs. frequência).
Conclusão:
A sincronização de unidades motoras reflete uma plasticidade adaptativa do sistema nervoso central, modulada pelo tipo de tarefa e treinamento. Embora não esteja diretamente associada à força máxima, parece contribuir para o controle fino da taxa de desenvolvimento de força e para a coordenação entre músculos. Assim, não deve ser vista como um ruído fisiológico, mas sim como uma estratégia neural funcional com importância na performance motora.
Fonte: Semmler, J. G. (2002). Motor Unit Synchronization and Neuromuscular Performance. Exercise and Sport Sciences Reviews, 30(1), 8–14.