Revisar também é trabalho científico: uma proposta às agências de fomento e avaliação


A publicação de um artigo científico representa apenas a parte visível de um processo muito mais amplo. Antes que um manuscrito seja publicado, outros pesquisadores analisam seu delineamento, seus procedimentos metodológicos, suas análises estatísticas, a interpretação dos resultados, a consistência das conclusões e sua contribuição para determinado campo do conhecimento. Frequentemente, essa avaliação exige várias horas de trabalho e mais de uma rodada de revisão.

Apesar disso, enquanto a publicação de um artigo produz consequências diretas para concursos, progressão na carreira, credenciamento em programas de pós-graduação, concessão de bolsas e financiamento de projetos, o trabalho do revisor permanece, na maioria dos casos, sem remuneração direta e com reconhecimento acadêmico limitado.

A magnitude dessa contribuição está longe de ser desprezível. Aczel, Szaszi e Holcombe estimaram que pesquisadores dedicaram mais de 130 milhões de horas à revisão de manuscritos em 2020, o equivalente a aproximadamente 15 mil anos de trabalho. Somente nos Estados Unidos, o valor estimado desse tempo ultrapassou 1,5 bilhão de dólares. Trata-se, portanto, de uma enorme transferência de trabalho especializado dos pesquisadores e de suas instituições para o sistema editorial científico (Aczel et al., 2021).

Esse trabalho não deve ser confundido com autoria. O revisor não concebeu a pesquisa, não realizou a coleta dos dados e não responde primariamente pelo conteúdo do artigo. Entretanto, a revisão também não pode continuar sendo tratada como uma atividade acessória ou como uma simples cortesia prestada às revistas. Um parecer metodologicamente rigoroso é uma contribuição intelectual para o controle de qualidade, a correção e o aperfeiçoamento do conhecimento científico.

No Brasil, algumas áreas e comitês do CNPq já mencionam a atuação como parecerista entre os elementos de inserção ou liderança acadêmica. Entretanto, esse reconhecimento é heterogêneo e geralmente secundário quando comparado à produção bibliográfica. Falta um sistema nacional padronizado que registre cada revisão, verifique sua realização e permita avaliar sua qualidade. Os próprios critérios dos comitês do CNPq mostram que a atividade já pode ser considerada, mas ainda não ocupa posição equivalente à sua importância para o funcionamento da ciência.

O que deveria ser reconhecido?

A unidade de reconhecimento não deveria ser simplesmente “uma revisão realizada”. Contar apenas o número de pareceres criaria incentivos para avaliações rápidas, superficiais ou excessivamente numerosas. A literatura já alertou que recompensar exclusivamente o volume de revisões pode prejudicar sua qualidade (Al-Khatib et al., 2019).

O que deve receber crédito é a revisão qualificada, documentada e verificável. Para isso, os periódicos poderiam avaliar os pareceres mediante critérios padronizados, como:

  1. identificação de problemas metodológicos ou analíticos relevantes;

  2. adequação da avaliação estatística;

  3. coerência entre resultados e conclusões;

  4. análise de transparência, reprodutibilidade e integridade;

  5. clareza, fundamentação e caráter construtivo das recomendações;

  6. cumprimento dos princípios de confidencialidade e declaração de conflitos de interesse.

Com base nesses critérios, os pareceres poderiam ser classificados como “revisão concluída”, “revisão substantiva” ou “contribuição excepcional”. Apenas as revisões substantivas ou excepcionais receberiam pontuação acadêmica expressiva. Uma revisão excepcional, especialmente quando pública, fundamentada e passível de leitura, poderia alcançar peso comparável ao de uma publicação nos processos de avaliação. Isso não significa declarar que revisão e autoria são atividades idênticas, mas reconhecer que ambas podem constituir contribuições intelectuais relevantes.

O crédito deve recair sobre o parecer, não sobre o artigo

Uma revisão fraca de um artigo excelente não se transforma em uma boa revisão. Da mesma forma, uma revisão rigorosa de um trabalho posteriormente criticado ou retratado não se torna automaticamente deficiente.

O revisor avalia a versão do manuscrito que recebeu, com as informações disponibilizadas pelos autores. Ele normalmente não repete os experimentos, não audita todos os dados originais e nem sempre examina a versão final efetivamente publicada. Além disso, sua recomendação subsidia a decisão editorial, mas não a substitui. A responsabilidade pela decisão de publicação permanece com o editor, enquanto a responsabilidade primária pelos dados e pelas conclusões permanece com os autores.

Por isso, a retratação posterior de um artigo não deve produzir punição automática ao revisor. A retratação pode decorrer de fraude não detectável no manuscrito, problemas identificados apenas após novas análises, erros introduzidos em versões posteriores ou recomendações dos revisores que não foram devidamente atendidas. Somente a análise do parecer permitiria determinar se houve omissão diante de um problema identificável.

O mesmo princípio deve ser aplicado positivamente: o prestígio, o número de citações ou o fator de impacto do periódico não devem transferir automaticamente crédito ao revisor. O mérito está na qualidade documentada do parecer, e não no sucesso posterior do artigo.

Como implementar o sistema

A infraestrutura necessária já existe parcialmente. O ORCID permite que organizações confiáveis registrem atividades verificadas de revisão, inclusive preservando o anonimato quando necessário (ORCID – Peer Reviews). O Crossref também dispõe de metadados específicos para tornar pareceres públicos citáveis e identificáveis, inclusive mediante DOI (Crossref).

A partir dessas estruturas, propõe-se que:

  • o CNPq crie no Currículo Lattes um registro individual e verificável de revisões concluídas, integrado ao ORCID;

  • CAPES, CNPq, fundações estaduais e universidades incluam a revisão qualificada nos critérios de bolsas, concursos, progressão e avaliação de pesquisadores;

  • os periódicos emitam registros autenticados, informando ano, número de rodadas, modalidade e classificação qualitativa do parecer;

  • revisões abertas possam receber DOI e ser apresentadas como produtos intelectuais independentes;

  • revisões confidenciais sejam registradas sem revelar o manuscrito ou comprometer o anonimato;

  • os currículos narrativos permitam que o pesquisador apresente seus pareceres mais relevantes entre suas principais contribuições científicas;

  • sejam estabelecidos limites anuais, auditorias e critérios de elegibilidade para evitar competição baseada apenas no número de pareceres.

Essa proposta está alinhada ao movimento internacional de reforma da avaliação científica. A DORA recomenda que instituições e agências considerem uma diversidade maior de produtos e contribuições, enquanto a CoARA mantém um grupo especificamente dedicado ao reconhecimento e à recompensa da revisão por pares.

Reconhecimento não substitui remuneração

A inclusão das revisões nos currículos não encerra o debate sobre remuneração. Crédito acadêmico e pagamento respondem a problemas diferentes. O primeiro combate a invisibilidade profissional; o segundo reconhece economicamente o tempo e a especialização empregados.

Especialmente no caso de editoras comerciais, devem ser discutidos honorários, descontos ou isenções de taxas de publicação e outras formas de compensação. O reconhecimento curricular não pode ser utilizado como justificativa para perpetuar indefinidamente a transferência gratuita de trabalho especializado.

A ciência depende não apenas de quem produz estudos, mas também de quem os examina criticamente. Se publicar é considerado produção científica, revisar com rigor também deve ser reconhecido como contribuição científica. O desafio não consiste em transformar pareceres em mais uma contagem burocrática, mas em criar um sistema capaz de distinguir quantidade de qualidade, preservar a confidencialidade e atribuir crédito verificável a quem efetivamente contribui para a integridade da literatura.

Os pesquisadores deveriam poder demonstrar em seus currículos não apenas aquilo que publicaram, mas também o trabalho intelectual que realizaram para avaliar, corrigir e proteger a qualidade do conhecimento publicado.

Autor : Bernardo N. Ide