Perda rápida de peso em esportes de combate: implicações fisiológicas, efeitos sobre o desempenho e recomendações práticas
A prática de perda rápida de peso é amplamente observada em esportes de combate organizados por categorias de massa corporal, como judô, jiu-jitsu e luta olímpica. O racional subjacente a esse comportamento reside na tentativa de competir contra adversários teoricamente mais leves e fisicamente menos robustos. Contudo, a revisão conduzida por Artioli, Franchini e Lancha Junior (2006) demonstra que essa estratégia, embora culturalmente difundida, está associada a um conjunto consistente de efeitos deletérios à saúde e a impactos potencialmente negativos sobre o desempenho esportivo.
Evidências provenientes de levantamentos epidemiológicos indicam que a grande maioria dos atletas de esportes de combate reduz entre 2% e mais de 10% do peso corporal nos dias que antecedem a competição, frequentemente em períodos inferiores a uma semana. Nos Estados Unidos, cerca de 90% dos lutadores olímpicos adotam esse tipo de prática. No contexto brasileiro, embora os dados sejam mais escassos, estudos com judocas de diferentes níveis competitivos apontam prevalência semelhante. Um aspecto particularmente preocupante é o início precoce desse comportamento, muitas vezes ainda na puberdade, com relatos de atletas iniciando ciclos repetitivos de perda e recuperação de peso antes dos 10 anos de idade.
Os métodos empregados para a redução rápida do peso corporal são, em sua maioria, potencialmente perigosos. Entre os mais comuns estão a restrição alimentar severa, a intensificação abrupta do treinamento, a desidratação voluntária por meio da restrição hídrica, uso de saunas, treino em ambientes quentes com roupas impermeáveis e, em casos mais extremos, a indução de vômitos e o uso de laxantes ou diuréticos. Dados citados na revisão indicam que mais de 70% dos atletas utilizam pelo menos um método reconhecidamente nocivo à saúde, e mais da metade combina dois ou mais procedimentos desse tipo de forma recorrente ao longo da temporada competitiva.
Do ponto de vista fisiológico, a perda rápida de peso está associada a reduções concomitantes de massa gorda e massa muscular. Observam-se alterações hormonais relevantes, como aumento da concentração de hormônio do crescimento (GH) e redução da testosterona, acompanhadas por modificações no eixo hipotálamo-hipófise-gônadas e no sistema IGF-1/GHBP. Em atletas jovens, há evidências de alterações transitórias em marcadores do estado nutricional proteico, como diminuição de pré-albumina e da proteína ligadora de retinol, além de mudanças no perfil de aminoácidos plasmáticos compatíveis com estados de subnutrição proteica. Embora esses efeitos tendam a ser revertidos após o período competitivo, levantam preocupações quanto ao desenvolvimento de massa muscular e ao potencial impacto cumulativo ao longo dos anos.
A desidratação, componente central da maioria das estratégias de perda rápida de peso, promove redução do volume plasmático, comprometimento do retorno venoso e diminuição do volume sistólico. Em condições de exercício submáximo, observa-se aumento desproporcional da frequência cardíaca e redução da eficiência cardiorrespiratória. Quando a desidratação atinge valores moderados a severos (3–7% do peso corporal), há prejuízos adicionais à termorregulação, aumento da temperatura corporal e maior sobrecarga cardiovascular, especialmente em ambientes quentes.
No que se refere ao desempenho aeróbio, a literatura é consistente ao demonstrar que a restrição energética e a desidratação prejudicam a capacidade de endurance. Entretanto, a revisão destaca um ponto metodológico relevante: em contextos competitivos reais, geralmente existe um intervalo de várias horas entre a pesagem e o início das lutas. Estudos que permitiram reidratação e realimentação adequadas mostram que, após aproximadamente cinco horas de recuperação, o desempenho aeróbio tende a retornar aos valores basais, desde que haja ingestão adequada de líquidos e carboidratos.
Os efeitos da perda rápida de peso sobre a força muscular apresentam resultados mais heterogêneos. Em avaliações agudas, especialmente quando há recuperação após a pesagem, muitos estudos não identificam reduções significativas na força máxima, seja em ações isométricas, isotônicas ou isocinéticas. Contudo, análises longitudinais ao longo da temporada competitiva indicam diminuição da força em comparação ao período fora de competição, sugerindo que o prejuízo pode estar mais relacionado ao ciclo repetitivo de ganhar e perder peso do que à redução aguda isolada.
O desempenho anaeróbio, fortemente relacionado às demandas fisiológicas das lutas, também pode ser afetado. A maioria dos estudos demonstra queda no desempenho quando não há tempo suficiente para recuperação ou quando a dieta durante a perda de peso é pobre em carboidratos. Por outro lado, protocolos que incluem ingestão elevada de carboidratos durante a restrição energética e no período pós-pesagem, bem como aqueles que adotam perda de peso gradual, tendem a preservar ou restaurar o desempenho anaeróbio. Ainda assim, mesmo com recuperação parcial, alguns sistemas fisiológicos, como a homeostase hidroeletrolítica e a reposição completa do glicogênio muscular, podem demandar períodos superiores a 24–72 horas.
Aspectos cognitivos e psicológicos constituem outra dimensão relevante abordada na revisão. Atletas submetidos à perda rápida de peso apresentam aumento de confusão mental, fadiga, tensão, raiva e sintomas depressivos, com redução do vigor e da autoestima. Estudos com judocas e lutadores universitários indicam prejuízos transitórios na memória de curto prazo e alterações negativas no perfil de humor, que tendem a se normalizar após alguns dias de recuperação. Tais efeitos são particularmente relevantes em atletas jovens, considerando possíveis repercussões sobre o desempenho acadêmico e o bem-estar psicológico.
No que diz respeito à relação entre recuperação do peso e sucesso competitivo, os dados disponíveis não são conclusivos. Embora atletas de maior nível competitivo frequentemente adotem estratégias de perda rápida de peso, a quantidade de peso recuperada entre a pesagem e a competição não parece discriminar de forma consistente os atletas mais bem-sucedidos daqueles com pior desempenho, especialmente em competições de nível nacional.
Com base no conjunto de evidências analisadas, os autores recomendam que atletas evitem competir em categorias de peso incompatíveis com suas características físicas naturais. Quando a redução de peso for considerada necessária, esta deve ser pequena, preferencialmente inferior a 2% do peso corporal, e realizada de forma gradual, sem restrição hídrica ou métodos que induzam desidratação. A dieta deve apresentar elevado teor de carboidratos durante todo o processo de redução e, especialmente, no período pós-pesagem. Além disso, são sugeridas medidas institucionais, como pesagens próximas ao início das lutas, programas educacionais e monitoramento do estado de hidratação, como estratégias para desencorajar práticas extremas e proteger a saúde dos atletas.
Referência
Artioli, G. G., Franchini, E., & Lancha Junior, A. H. (2006). Perda de peso em esportes de combate de domínio: revisão e recomendações aplicadas. Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano, 8(2), 92–101.