Pensamento crítico pode ser ensinado?

  • 03-07-2026

Fala-se muito em “pensamento crítico”, mas nem sempre o conceito é usado com precisão. Pensar criticamente não significa apenas discordar, opinar com firmeza ou rejeitar ideias populares. Na literatura educacional, o pensamento crítico é descrito como um julgamento intencional e autorregulado, que envolve interpretação, análise, avaliação, inferência e explicação das razões que sustentam uma conclusão. Em outras palavras, não basta ter opinião: é necessário examinar evidências, critérios, contexto e limitações antes de aceitar ou rejeitar uma afirmação.

Uma meta-análise publicada na Review of Educational Research avaliou se estratégias de ensino podem realmente desenvolver o pensamento crítico em estudantes. Os autores reuniram evidências de estudos experimentais e quase-experimentais que utilizaram medidas padronizadas de pensamento crítico. Na análise principal, foram incluídos 341 tamanhos de efeito, com efeito médio positivo, porém baixo, sobre habilidades gerais de pensamento crítico: g+ = 0,30; p < 0,001. Isso indica que o pensamento crítico pode ser ensinado, mas não de forma automática, nem apenas pela exposição passiva ao conteúdo.

Esse ponto é importante. Não parece suficiente dizer ao aluno que ele deve “pensar criticamente”. Também não parece suficiente apenas transmitir conteúdo e esperar que a capacidade crítica apareça como consequência natural. A evidência sintetizada no artigo indica que algumas estratégias são mais promissoras: diálogo, discussão orientada, problemas autênticos, situações aplicadas e mentoria. Ou seja, o estudante precisa ser colocado em condições nas quais tenha que analisar informações, justificar decisões, confrontar argumentos e receber correções qualificadas.

Entre as estratégias específicas, os resultados favoreceram situações em que o professor faz perguntas aos estudantes, conduz discussões com a turma inteira ou orienta discussões em pequenos grupos. Também houve efeitos positivos para resolução de problemas aplicados e atividades de dramatização ou simulação de papéis. Esses achados sugerem que o pensamento crítico se desenvolve melhor quando o aluno precisa trabalhar com problemas contextualizados, e não apenas memorizar definições ou repetir conceitos.

Um resultado particularmente relevante é que os efeitos foram maiores quando diferentes estratégias foram combinadas. A combinação entre problemas autênticos, diálogo e mentoria produziu efeitos superiores à utilização isolada de algumas dessas abordagens. A interpretação mais prudente é que a mentoria, isoladamente, não parece ser suficiente; porém, quando combinada com discussão e problemas aplicados, pode potencializar o desenvolvimento do pensamento crítico.

Outro ponto relevante é a diferença entre pensamento crítico genérico e pensamento crítico específico de conteúdo. As habilidades gerais apresentaram efeito médio baixo, enquanto as habilidades de pensamento crítico específicas do conteúdo apresentaram efeito médio moderado: g+ = 0,57. Isso reforça uma ideia central para a educação científica: pensar criticamente exige conhecimento sobre aquilo que está sendo analisado. Não é possível avaliar bem uma afirmação sobre fisiologia, biomecânica, treinamento ou saúde sem dominar minimamente os conceitos, métodos e evidências daquela área.

A meta-análise também mostrou efeitos positivos sobre desempenho acadêmico geral, com g+ = 0,33, e sobre disposições relacionadas ao pensamento crítico, com g+ = 0,23. Entretanto, esses efeitos foram heterogêneos, indicando grande variação entre os estudos. Portanto, a conclusão não deve ser exagerada. A evidência não mostra que qualquer método “ativo” melhora automaticamente o pensamento crítico. Mostra, de forma mais específica, que intervenções estruturadas, com diálogo, problemas situados e orientação qualificada, tendem a produzir melhores resultados.

Na prática, isso tem implicações diretas para professores, treinadores, profissionais de saúde e estudantes. Uma aula ou curso que pretende desenvolver pensamento crítico não pode se limitar a transmitir respostas prontas. É necessário criar situações nas quais o aluno precise justificar por que determinada conclusão é aceitável, qual evidência sustenta essa conclusão, quais alternativas foram descartadas e quais limitações permanecem.

No campo do exercício, do esporte e da saúde, isso é especialmente importante. Muitas afirmações circulam com aparência técnica, mas sem sustentação conceitual ou empírica adequada. Pensamento crítico, nesse contexto, não é repetir frases de autoridade, nem aceitar modismos porque são populares. É saber perguntar: qual é a evidência? O desenho do estudo permite essa conclusão? A terminologia está correta? O mecanismo proposto é biologicamente plausível? A aplicação prática respeita os limites dos dados?

A principal mensagem do artigo é direta: pensamento crítico pode ser desenvolvido, mas precisa ser ensinado de forma deliberada. Isso exige conteúdo, discussão, problemas reais e correção. Sem esses elementos, o discurso sobre “formar alunos críticos” corre o risco de permanecer apenas como uma intenção pedagógica, não como um resultado observável.

Referência
Abrami, P. C., Bernard, R. M., Borokhovski, E., Waddington, D. I., Wade, C. A., & Persson, T. Strategies for Teaching Students to Think Critically: A Meta-Analysis. Review of Educational Research, 85(2), 275–314.

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