“Professor, você nunca esteve na prática, por isso não entende esses treinos.”
Essa frase, dita com certa frequência em diferentes contextos da Educação Física, revela menos sobre o professor e mais sobre uma compreensão limitada do que significa ensinar, estudar e formar profissionais.
A resposta poderia ser simples:
Você está certo. Eu não estava lá executando aquele treino específico. Eu provavelmente estava em outro lugar, ensinando pessoas a entender, planejar, aplicar, controlar e avaliar esse tipo de treino.
Esse é justamente o ponto.
A função de um professor não é apenas “fazer junto”. A função de um professor é formar a capacidade de pensar, interpretar, decidir e intervir com base em critérios. O professor não precisa ter estado presente em cada treino realizado por cada aluno para compreender os princípios que sustentam — ou não sustentam — aquela prática. Assim como um professor de fisiologia não precisa ter participado de todos os experimentos da história para explicar metabolismo energético, um professor de biomecânica não precisa ter observado cada agachamento do mundo para analisar forças, momentos articulares e padrões de movimento.
O problema surge quando a “prática” é usada como argumento de autoridade contra o conhecimento. Nesse caso, a experiência deixa de ser uma fonte legítima de aprendizado e passa a ser uma blindagem contra qualquer análise crítica.
É evidente que a prática importa. Ninguém sério negaria isso. A intervenção profissional exige contato com pessoas reais, contextos reais, limitações reais e problemas reais. No entanto, prática sem critério pode se transformar apenas em repetição. Estar “na prática” não garante compreender o que se está fazendo. Executar, aplicar ou reproduzir um treino não significa, automaticamente, dominar seus fundamentos.
Há uma diferença importante entre participar de uma prática e compreender uma prática.
Um aluno pode ter realizado determinado método de treinamento por meses e ainda assim não saber explicar sua lógica. Pode ter aplicado um protocolo e não saber justificar a escolha das variáveis. Pode dizer que algo “funciona” apenas porque observou melhora em alguns casos, sem controlar fatores básicos como nível inicial dos praticantes, aderência, progressão de carga, volume total, especificidade do estímulo, recuperação ou comparação com outras possibilidades de intervenção.
O professor, quando cumpre sua função, não está ali para validar qualquer prática apenas porque ela existe. Ele está ali para perguntar: qual é o objetivo? Quais capacidades estão sendo treinadas? Qual é a justificativa para essa organização? Quais variáveis foram manipuladas? Qual é o critério de progressão? Quais são os riscos? Que evidências sustentam essa escolha? Que outras estratégias poderiam produzir o mesmo resultado de forma mais simples, segura ou eficiente?
Essas perguntas incomodam porque retiram o treino do campo da opinião e o colocam no campo da análise.
Também é comum que alguns alunos confundam crítica técnica com ataque pessoal. Quando um professor questiona um treino, ele não está necessariamente dizendo que o aluno é incapaz. Está dizendo que uma prática profissional precisa ser examinada. Na Educação Física, como em qualquer área aplicada, não basta fazer. É necessário saber por que se faz, para quem se faz, como se faz, quando se faz e com quais critérios se avalia o resultado.
A tentativa de menosprezar o professor pela frase “você nunca esteve na prática” ignora que muitos professores justamente formam os profissionais que estarão na prática. Eles organizam conceitos, discutem métodos, interpretam evidências, corrigem equívocos, ensinam limites e mostram que uma intervenção não deve ser sustentada apenas por entusiasmo, tradição ou modismo.
A prática é indispensável. Mas a prática sem reflexão vira hábito. A prática sem ciência vira crença. A prática sem avaliação vira narrativa. A prática sem fundamentos vira improviso.
Portanto, antes de usar a “prática” como argumento para diminuir o professor, talvez seja necessário compreender qual é a função docente. O professor não está ali apenas para repetir exercícios, demonstrar métodos ou concordar com aquilo que já está sendo feito. Ele está ali para formar pensamento profissional.
E formar pensamento profissional, muitas vezes, exige dizer ao aluno exatamente aquilo que ele não quer ouvir: a experiência prática é importante, mas ela não substitui o conhecimento. Ela precisa ser interpretada por ele.