O paradoxo da Educação Física: exigimos formação superior, mas desvalorizamos o conhecimento

O paradoxo da Educação Física: exigimos formação superior, mas desvalorizamos o conhecimento

Recentemente, após comentar sobre a importância de uma formação científica sólida para os profissionais de Educação Física, recebi, coincidentemente, o anúncio de um curso técnico relacionado à nossa área. Isso me fez refletir sobre uma contradição que observo há bastante tempo e que considero extremamente preocupante: muitos profissionais e estudantes defendem a obrigatoriedade da formação superior, mas suas próprias escolhas educacionais e profissionais parecem contrariar essa reivindicação.

A Educação Física é uma área de conhecimento que envolve o estudo aprofundado do movimento humano, das respostas e adaptações fisiológicas ao exercício, dos processos bioquímicos envolvidos na produção de energia e dos princípios biomecânicos que determinam as forças e os movimentos. Esses conhecimentos não são acessórios. São fundamentos indispensáveis para compreender, avaliar, prescrever e justificar intervenções profissionais.

Entretanto, basta observar parte do comportamento de profissionais e estudantes, especialmente nas redes sociais, para perceber uma contradição.

Como podemos exigir formação universitária e, ao mesmo tempo, desprezar os conhecimentos que deveriam distinguir um profissional de nível superior?

É comum observar profissionais que investem em cursos ministrados por pessoas sem formação acadêmica na área, acompanham influenciadores digitais que se autodenominam professores e adotam estratégias de treinamento divulgadas por atletas, muitas vezes sem qualquer análise crítica dos fundamentos científicos que sustentariam essas propostas.

O problema não está necessariamente na ausência de um título acadêmico. Um diploma, mestrado ou doutorado não garante que todas as afirmações de alguém estejam corretas, assim como a ausência dessas titulações não significa que uma pessoa seja incapaz de produzir conhecimento relevante. O problema está em substituir critérios científicos de avaliação pela popularidade, pela aparência física, pelos resultados esportivos ou pela capacidade de comunicação e persuasão.

O fato de um atleta apresentar desempenho excepcional não significa que compreenda os mecanismos fisiológicos responsáveis por suas adaptações. Da mesma forma, possuir um físico musculoso não torna alguém especialista em fisiologia muscular, biomecânica ou metodologia científica.

Ainda assim, essas características parecem exercer enorme influência sobre aquilo que muitos profissionais escolhem estudar, reproduzir e divulgar.

Outro aspecto preocupante é a aparente falta de interesse pelos conhecimentos fundamentais da profissão. Quantos profissionais conseguem explicar adequadamente os processos bioquímicos relacionados à ressíntese de ATP? Quantos compreendem os mecanismos responsáveis pelas adaptações neurais e musculares ao treinamento de força? Quantos conseguem analisar mecanicamente um exercício, considerando forças, torques, velocidades e deslocamentos?

Essas questões deveriam fazer parte da formação básica de qualquer profissional que pretenda fundamentar cientificamente suas intervenções.

Entretanto, frequentemente observamos discussões intermináveis sobre novos nomes de métodos de treinamento, estratégias supostamente revolucionárias, exercícios apresentados como superiores e conceitos divulgados comercialmente, enquanto conhecimentos elementares de bioquímica, fisiologia e biomecânica permanecem negligenciados.

Parece existir mais interesse em descobrir o próximo método de treinamento do que em compreender os mecanismos que explicam as respostas e adaptações ao exercício.

Também considero contraditório que pesquisadores e professores universitários, muitos deles dedicando décadas à investigação científica, frequentemente recebam pouca atenção nas redes sociais, enquanto influenciadores sem formação científica consistente conquistam enorme visibilidade ao apresentar explicações simplistas, conceitos equivocados ou estratégias de treinamento sem fundamentação adequada.

Não estou afirmando que o número de seguidores determine a qualidade do conhecimento. Justamente o contrário. Estou questionando por que tantos profissionais da nossa área parecem atribuir mais valor à popularidade do que à competência científica.

Evidentemente, as próprias universidades também precisam ser questionadas. A obtenção de um diploma não garante, isoladamente, uma formação de qualidade. Instituições de ensino precisam assegurar profundidade conceitual, desenvolvimento do raciocínio científico e capacidade de aplicação dos conhecimentos adquiridos.

Contudo, a responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente às instituições.

O estudante que busca apenas aprovação nas disciplinas, sem se preocupar em compreender os conteúdos, e o profissional que, após a graduação, abandona o estudo dos fundamentos científicos e passa a consumir predominantemente conteúdos superficiais também contribuem para a desvalorização da própria formação.

É nesse contexto que considero especialmente preocupante a possibilidade de uma progressiva redução da formação em Educação Física a uma preparação predominantemente técnica e operacional.

É necessário distinguir a existência de cursos técnicos relacionados ao esporte da substituição legal da formação superior exigida para o exercício profissional. Entretanto, independentemente dessa distinção, a questão que proponho é essencialmente educacional: se a atuação profissional se limitar à reprodução de exercícios e protocolos, sem compreensão dos mecanismos que os fundamentam, qual será o diferencial efetivo da formação universitária?

Aprender a executar exercícios, organizar sessões ou reproduzir programas de treinamento não deveria constituir o limite da formação de um profissional de nível superior.

A universidade precisa formar indivíduos capazes de compreender fenômenos, interpretar evidências, identificar limitações metodológicas, avaliar criticamente propostas e tomar decisões fundamentadas em conhecimentos científicos.

Essa é a diferença que precisamos defender.

Por isso, considero que os próprios profissionais e estudantes possuem uma parcela importante de responsabilidade pela progressiva desvalorização educacional da Educação Física.

Não podemos exigir reconhecimento acadêmico e profissional enquanto negligenciamos aquilo que deveria sustentar esse reconhecimento. Não podemos reivindicar uma formação superior e, simultaneamente, tratar o conhecimento científico como algo secundário ou dispensável.

Se queremos preservar e valorizar a Educação Física como uma profissão fundamentada no ensino superior, precisamos começar valorizando efetivamente a formação científica.

Isso significa estudar bioquímica, fisiologia, biomecânica, metodologia científica e outras áreas fundamentais com profundidade, acompanhar pesquisadores qualificados, ler artigos científicos, questionar afirmações e exigir justificativas consistentes para as estratégias de intervenção profissional.

A formação superior não pode representar apenas uma exigência burocrática para obtenção de um registro profissional. Ela precisa representar uma diferença real na capacidade de compreender e explicar os fenômenos relacionados ao exercício físico.

Caso contrário, continuaremos defendendo um diploma cujo conteúdo intelectual, na prática, muitos dos próprios profissionais parecem não valorizar.

E talvez essa seja a maior contradição da Educação Física contemporânea: exigir uma formação de nível superior enquanto se comporta como se o conhecimento que a fundamenta fosse desnecessário.

O retrocesso educacional não começa necessariamente com a criação de um curso técnico. Ele começa quando os próprios profissionais deixam de valorizar os conhecimentos que justificam a existência de um curso superior.


Autor : Bernardo N. Ide