O domínio queniano nas corridas de meio-fundo e fundo: uma vantagem fisiológica simples ou um fenômeno multifatorial?

A predominância de corredores quenianos em provas de meio-fundo e fundo constitui um dos fenômenos mais marcantes do esporte contemporâneo. A revisão de Larsen e Sheel, publicada em 2015 no Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, analisou criticamente as evidências disponíveis sobre os fatores fisiológicos associados ao desempenho desses atletas, com foco em consumo máximo de oxigênio, utilização fracional do VO2max, economia de corrida, características musculares e possíveis limitações do sistema pulmonar.

Segundo os autores, a dominância queniana em provas de 800 m até a maratona tornou-se tão expressiva que dificilmente encontra paralelo em outras modalidades esportivas. Dados apresentados no artigo mostram que, há cerca de quatro décadas, os corredores europeus ainda ocupavam posição de destaque nas listas históricas de desempenho. Em 1987, considerando as seis principais provas entre 800 m e maratona, incluindo o steeplechase, os europeus respondiam por 48,3% dos resultados entre os 20 melhores de todos os tempos, enquanto os africanos correspondiam a 26,6%, dos quais 13,3% eram quenianos. Em junho de 2015, esse quadro havia mudado radicalmente: os europeus representavam apenas 4,2% dos resultados, enquanto os africanos passaram a corresponder a 91,7%, sendo 53,3% atribuídos a quenianos.

Esse domínio é ainda mais notável quando se observa sua concentração populacional. Muitos dos principais corredores quenianos pertencem ao grupo Kalenjin, formado por oito pequenas tribos que, em conjunto, representam aproximadamente cinco milhões de pessoas. Dentro desse grupo, os Nandi são particularmente destacados, embora representem apenas cerca de 2% da população geral do Quênia. Esse dado, por si só, não explica o fenômeno, mas indica que a discussão não pode ser reduzida a uma única variável fisiológica, social ou genética.

Larsen e Sheel delimitam deliberadamente o escopo da revisão à fisiologia dos corredores quenianos, reconhecendo que explicações baseadas em raça, ancestralidade ou biologia populacional são controversas e exigem cautela. A questão central da revisão não é afirmar uma superioridade biológica simples, mas examinar se os corredores quenianos apresentam características fisiológicas mensuráveis que possam contribuir para seu desempenho excepcional.

Na fisiologia do desempenho em corrida de longa duração, três fatores são tradicionalmente considerados determinantes: elevado consumo máximo de oxigênio, alta capacidade de sustentar uma fração elevada desse consumo máximo durante a prova e boa economia de corrida. Em termos práticos, um corredor de elite precisa ter grande capacidade de transporte e utilização de oxigênio, conseguir sustentar intensidades próximas ao máximo por períodos prolongados e gastar menos energia para correr em determinada velocidade.

O primeiro ponto analisado é o VO2max. A literatura clássica descreve valores típicos de aproximadamente 70 a 85 mL/kg/min em atletas homens de elite, com valores cerca de 10% menores em mulheres, principalmente em razão de diferenças na concentração de hemoglobina e composição corporal. Entretanto, quando se comparam atletas de nível semelhante, o VO2max deixa de ser um discriminador tão sensível do desempenho.

Os dados revisados indicam que corredores quenianos de elite apresentam VO2max muito elevado, mas não necessariamente superior ao de corredores europeus de elite. Em estudo citado pelos autores, corredores quenianos avaliados ao nível do mar apresentaram VO2max médio de 79,9 mL/kg/min, valor praticamente igual ao observado em corredores escandinavos de elite, que apresentaram 79,2 mL/kg/min. Em altitude, corredores quenianos e escandinavos também exibiram valores semelhantes, respectivamente 66,3 e 67,3 mL/kg/min.

Os autores, no entanto, ponderam que alguns dos melhores atletas quenianos avaliados poderiam apresentar valores próximos de 85 mL/kg/min quando estudados em condição ótima e ao nível do mar. Exemplos históricos incluem Kipchoge “Kip” Keino, com VO2max de 84,8 mL/kg/min, e Henry Rono, com 84,3 mL/kg/min. Esses valores são comparáveis aos de corredores não quenianos de altíssimo nível, como Dave Bedford, com 85,0 mL/kg/min, e Steve Prefontaine, com 84,4 mL/kg/min.

Portanto, a conclusão mais prudente é que os corredores quenianos de elite possuem VO2max muito alto, frequentemente na faixa de 80 a 85 mL/kg/min, mas essa característica não parece exclusiva nem suficiente para explicar sua dominância. Há, inclusive, corredores quenianos bem-sucedidos com valores relativamente menores. Estudos citados na revisão relatam maratonistas quenianos com média de 2 h 07 min 17 s e VO2max de 63,1 mL/kg/min quando avaliados a 2000 m de altitude no Quênia, e de 67,5 mL/kg/min quando avaliados na Itália a 1300 m. Outro estudo encontrou corredores quenianos capazes de correr 10 km em 28 min 29 s com VO2max médio de 71,5 mL/kg/min.

Esses dados indicam que o desempenho queniano não pode ser explicado por um VO2max excepcionalmente maior do que o de todos os demais corredores. Em alguns casos, o desempenho ocorre mesmo com valores de VO2max relativamente modestos para padrões de elite, o que reforça a importância de outros fatores.

A segunda variável analisada é a utilização fracional do VO2max, ou seja, a fração do consumo máximo de oxigênio que o atleta consegue sustentar durante a prova. Esse fator é especialmente relevante em provas longas, pois atletas com VO2max semelhante podem diferir substancialmente na capacidade de manter altas intensidades por períodos prolongados.

A revisão mostra que corredores quenianos são capazes de sustentar frações muito elevadas do VO2max. Kip Keino, por exemplo, teria utilizado praticamente todo seu VO2max durante uma prova de 5000 m e mais de 97 a 98% do VO2max em uma corrida de 10 km. Estudos mais recentes indicaram que corredores quenianos conseguem sustentar velocidades correspondentes a 93 a 96% da velocidade associada ao VO2max durante corrida em esteira na intensidade equivalente aos 10.000 m.

Contudo, novamente, essa característica não parece distinguir claramente os quenianos de corredores europeus de nível semelhante. Em um estudo comparando maratonistas quenianos e europeus com desempenho parecido, a utilização fracional do VO2max durante a maratona foi extremamente alta em ambos os grupos, mas similar entre eles. Assim, a capacidade de sustentar alta fração do VO2max é fundamental para o desempenho, mas não parece constituir uma vantagem fisiológica exclusiva dos quenianos.

A revisão também discute as características musculares. Uma maior proporção de fibras do tipo I, com maior capacidade oxidativa, costuma ser associada ao desempenho em corridas de longa duração. Corredores quenianos e escandinavos de elite apresentam alta proporção dessas fibras. Corredores quenianos juvenis também parecem apresentar porcentagem elevada, próxima de 70% de fibras tipo I, valor não muito diferente do observado em corredores quenianos adultos de elite.

Ainda assim, os autores destacam que a evidência é limitada. O número de biópsias musculares realizadas em corredores quenianos é pequeno, o que impede conclusões fortes. Além disso, quando se compararam corredores quenianos e escandinavos de elite, não foram observadas diferenças consistentes na atividade de enzimas oxidativas, como citrato sintase, tanto no vasto lateral quanto no gastrocnêmio. A capilarização muscular também mostrou apenas tendência a ser maior nos quenianos, sem uma diferença suficientemente robusta para sustentar uma explicação isolada.

No metabolismo sanguíneo durante o exercício, a revisão aponta achados potencialmente relevantes. Corredores quenianos de elite apresentam menores concentrações de lactato sanguíneo em intensidades submáximas, tanto em altitude quanto ao nível do mar, quando comparados a outros corredores de elite. Essa diferença parece mais pronunciada em intensidades mais altas. Também foram observadas menores respostas de amônia sanguínea, especialmente após testes máximos, nos quais os valores em quenianos foram apenas metade ou um terço daqueles observados em outros corredores de elite.

Esses achados sugerem que pode haver particularidades metabólicas relacionadas à menor perturbação homeostática durante esforços intensos. No entanto, os próprios autores tratam esses dados com cautela e indicam a necessidade de mais investigações. A menor resposta de lactato ou amônia não deve ser interpretada isoladamente como causa direta do desempenho, mas como um marcador fisiológico compatível com alta eficiência metabólica e resistência à fadiga.

O fator que recebeu maior apoio como possível diferencial fisiológico foi a economia de corrida. A economia de corrida é definida como o consumo submáximo de oxigênio necessário para correr em uma determinada velocidade. Em termos simples, quanto menor o VO2 para uma mesma velocidade, melhor a economia. Um corredor mais econômico gasta menos energia para manter o mesmo ritmo, o que pode permitir maior velocidade sustentável durante provas de longa duração.

Estudos revisados por Larsen e Sheel indicam que corredores quenianos de elite apresentam menor custo de oxigênio em velocidades submáximas em comparação com outros corredores de elite, mesmo quando os dados são normalizados pela massa corporal. Alguns corredores quenianos altamente eficientes, como Julius Korir e John Ngugi, apresentaram economia comparável à de corredores caucasianos historicamente reconhecidos pela excelente eficiência, como Derek Clayton e Frank Shorter.

A explicação provável para essa economia superior não é única, mas os autores destacam as dimensões corporais como um componente importante. Estudos clássicos de locomoção mostram que mover os membros inferiores representa parte substancial do custo metabólico da corrida. Além disso, experimentos com adição de massa aos pés ou tornozelos demonstram que mesmo pequenos aumentos de massa distal elevam o custo metabólico. Assim, membros inferiores mais longos, panturrilhas mais finas e menor massa corporal podem reduzir o custo energético associado ao balanço dos membros durante a corrida.

Nesse sentido, corredores quenianos de elite foram descritos como tendo pernas aproximadamente 5% mais longas do que corredores escandinavos, além de musculatura da panturrilha mais fina e mais leve. Meninos quenianos Nandi também apresentaram baixa massa corporal e baixo índice de massa corporal em comparação a adolescentes de outros continentes. Essa combinação anatômica pode favorecer a economia de corrida, embora não deva ser interpretada de maneira determinista.

A comparação entre estudos reforça essa interpretação. Em uma pesquisa citada na revisão, maratonistas quenianos e europeus com desempenho semelhante apresentaram economia de corrida e dimensões corporais também semelhantes. Em contraste, quando corredores escandinavos de elite apresentaram pior economia do que corredores quenianos, eles também eram mais altos, mais pesados e tinham maior índice de massa corporal. Isso sugere que a economia de corrida pode estar fortemente relacionada às dimensões corporais, e não simplesmente à nacionalidade ou ancestralidade.

Um ponto especialmente relevante da revisão é a análise do sistema pulmonar. Muitas vezes, presume-se que atletas de endurance possuam vantagens cardiorrespiratórias amplas. Contudo, os autores mostram que, no caso dos corredores quenianos, o sistema pulmonar não parece conferir vantagem fisiológica específica. Pelo contrário, há evidências de limitações pulmonares durante exercício intenso.

O artigo descreve achados de hipoxemia arterial induzida pelo exercício, limitação de fluxo expiratório e elevado trabalho da musculatura respiratória em corredores quenianos. Em estudo citado, jovens corredores quenianos foram avaliados durante teste incremental em esteira a 1545 m de altitude. Durante o exercício máximo, houve redução significativa da pressão arterial de oxigênio e da saturação arterial de oxigênio, além de aumento da diferença alvéolo-arterial de oxigênio. A figura apresentada na página 6 do artigo ilustra essa resposta, mostrando queda progressiva da PaO2 e da SaO2 com o aumento da intensidade, ao mesmo tempo em que a diferença alvéolo-arterial de oxigênio aumenta.

Esses dados indicam prejuízo nas trocas gasosas durante exercício intenso, com magnitude suficiente para comprometer a entrega de oxigênio aos tecidos. Segundo os autores, a redução da saturação arterial de oxigênio no exercício máximo decorreu de uma combinação entre queda da PaO2, responsável por aproximadamente 60% do fenômeno, e deslocamentos da curva de dissociação da hemoglobina associados à acidose e ao aumento da temperatura corporal, responsáveis por cerca de 40%.

Além disso, os corredores quenianos avaliados apresentaram limitação de fluxo expiratório ou tendência à limitação de fluxo durante exercício máximo. O trabalho respiratório aumentou de forma progressiva e curvilínea durante o exercício, em magnitude compatível com a observada em atletas não quenianos. Os autores concluem que, com base nas evidências disponíveis, os corredores quenianos não possuem um sistema pulmonar que proporcione vantagem fisiológica. Ao contrário, parecem apresentar limitações pulmonares semelhantes às de outros atletas altamente treinados.

A discussão final da revisão é importante porque evita explicações simplistas. Larsen e Sheel ressaltam que diferentes regiões geográficas já dominaram corridas internacionais ao longo do último século, incluindo Finlândia, Austrália e Nova Zelândia. Isso enfraquece interpretações baseadas exclusivamente em genética. Ao mesmo tempo, os autores reconhecem que a magnitude atual da dominância africana, especialmente queniana, é muito superior à observada em ciclos históricos anteriores.

A revisão aponta que o “fenômeno queniano” provavelmente resulta da interação entre biologia, dimensões corporais, economia de corrida, ambiente, altitude, cultura esportiva, motivação, estrutura social, história e oportunidades competitivas. A fisiologia explica parte do fenômeno, mas não sua totalidade. Entre os fatores fisiológicos, a economia de corrida e as dimensões corporais aparecem como os componentes mais plausíveis para diferenciar parte dos corredores quenianos de outros atletas de elite. Por outro lado, VO2max, utilização fracional do VO2max, proporção de fibras tipo I, enzimas oxidativas e capilarização muscular não apresentam evidência suficiente para serem considerados vantagens exclusivas.

Outro ponto metodológico relevante é a escolha dos grupos de comparação. Os autores observam que comparar maratonistas quenianos e europeus com tempos semelhantes pode ser problemático. Um tempo de 2 h 08 min, por exemplo, poderia colocar um europeu entre os melhores de todos os tempos em seu continente, mas corresponderia a uma posição muito mais baixa entre os quenianos. Portanto, corredores com o mesmo desempenho absoluto podem não ocupar o mesmo estrato competitivo dentro de seus respectivos contextos nacionais. Isso complica a interpretação de estudos comparativos.

Em síntese, a revisão mostra que a superioridade queniana em corridas de meio-fundo e fundo não pode ser explicada por uma única variável fisiológica. Corredores quenianos de elite possuem VO2max elevado, mas semelhante ao de outros corredores de elite. Sustentam frações muito altas do VO2max, mas essa característica também ocorre em europeus de nível comparável. Apresentam alta proporção de fibras oxidativas e boa capacidade metabólica muscular, mas as evidências disponíveis não demonstram uma diferença inequívoca em relação a outros grupos. A economia de corrida, possivelmente favorecida por dimensões corporais específicas, emerge como o fator fisiológico mais consistente. Entretanto, mesmo esse fator deve ser interpretado dentro de um contexto multifatorial.

O artigo de Larsen e Sheel contribui ao deslocar a discussão de explicações reducionistas para uma análise mais criteriosa. A dominância queniana não é simplesmente produto de “genética”, “altitude”, “VO2max” ou “talento natural”. Trata-se de um fenômeno complexo, no qual características fisiológicas favoráveis interagem com fatores ambientais, socioculturais e históricos. Do ponto de vista científico, a principal conclusão é que ainda faltam estudos com amostras maiores, atletas verdadeiramente de elite e grupos controle adequadamente selecionados para compreender com maior precisão os mecanismos que sustentam performances tão extraordinárias.

Referência

Larsen HB, Sheel AW. The Kenyan runners. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. 2015;25 Suppl 4:110-118. doi:10.1111/sms.12573.

Autor : Bernardo N. Ide