Monitorar a velocidade criou um novo paradigma no treinamento de força?

Monitorar a velocidade criou um novo paradigma no treinamento de força?

O monitoramento da velocidade da barra tornou-se uma das ferramentas mais discutidas no treinamento de força. Em vez de prescrever o treino apenas por uma porcentagem previamente estabelecida de uma repetição máxima (%1-RM), a proposta é utilizar a velocidade da barra ou do implemento para estimar a carga relativa, acompanhar o desempenho diário e interromper as séries quando determinada perda de velocidade for atingida.

No artigo Toward a New Paradigm in Resistance Training by Means of Velocity Monitoring: A Critical and Challenging Narrative (Gonzalez-Badillo, Sanchez-Medina et al. 2022), González-Badillo e colaboradores defendem que essa abordagem representaria um novo paradigma para o treinamento resistido. Segundo os autores, o monitoramento da velocidade permitiria conhecer com maior precisão a carga aplicada, o grau de esforço realizado e os efeitos produzidos pelo treinamento.

O artigo apresenta críticas pertinentes aos métodos tradicionais. Entretanto, algumas de suas conclusões ultrapassam o que pode ser sustentado pelas evidências e, em determinados pontos, decorrem de interpretações mecanicamente inadequadas.

O que o artigo acerta

A repetição máxima não é uma medida perfeitamente estável. Sim, a capacidade de produzir força pode variar entre sessões em função de fadiga, sono, alimentação, dor, estado motivacional e treinamento realizado nos dias anteriores. Consequentemente, uma carga correspondente a 80% de 1-RM em uma avaliação pode não representar exatamente 80% da capacidade do indivíduo em outra sessão.

Também é correta a crítica à prescrição baseada exclusivamente em um número fixo de repetições. Duas pessoas podem realizar quantidades diferentes de repetições com a mesma %1-RM. Portanto, prescrever três séries de dez repetições para todos não garante que todos terminem as séries com a mesma proximidade da falha ou o mesmo declínio de desempenho.

Nesse contexto, medir a velocidade apresenta vantagens evidentes. A velocidade da primeira repetição pode fornecer informações sobre a capacidade momentânea do indivíduo, enquanto sua redução ao longo da série permite quantificar objetivamente a queda do desempenho mecânico.

A análise da relação entre carga e velocidade também pode revelar adaptações que não aparecem em um teste isolado de repetição máxima. Um indivíduo pode não aumentar sua repetição máxima, mas passar a deslocar cargas leves e moderadas em maior velocidade. Para muitos esportes, essa alteração pode ser mais relevante do que o aumento da carga máxima levantada.

Portanto, a velocidade é uma variável útil. O problema começa quando ela deixa de ser apresentada como uma ferramenta complementar e passa a ser tratada como a única forma válida de compreender e controlar o treinamento.

Todo treinamento resistido seria treinamento de força máxima?

Uma das teses centrais do artigo é que o único tipo de treinamento resistido existente seria o treinamento de força máxima (Gonzalez-Badillo, Sanchez-Medina et al. 2022). Os autores argumentam que qualquer aumento da velocidade ou da potência dependeria necessariamente de maior aplicação de força. Assim, treinamento de potência, treinamento balístico, treinamento de velocidade e treinamento de resistência muscular não seriam modalidades propriamente distintas. Todavia, essa conclusão depende de uma ampliação excessiva do conceito de força máxima.

É correto afirmar que a capacidade máxima de produção de força varia conforme a velocidade, o ângulo articular, o comprimento muscular e o tipo de ação. Um indivíduo não apresenta apenas uma única expressão de força. Entretanto, chamar toda força voluntária produzida com intenção máxima de “força máxima” torna o termo tão abrangente que ele perde capacidade classificatória.

Sob essa definição, um salto, um arremesso, uma repetição com 30% de 1-RM e uma contração isométrica máxima seriam todos classificados simplesmente como manifestações de força máxima. Embora exista produção de força em todas essas tarefas, as restrições mecânicas, a duração disponível para aplicação de força, as velocidades, as adaptações e os objetivos do treinamento não são equivalentes.

O fato de diferentes programas compartilharem mecanismos ou produzirem adaptações simultâneas também não elimina a utilidade das categorias. Um programa orientado à hipertrofia pode aumentar a força. Um programa orientado à potência pode aumentar a força máxima. Um programa com cargas elevadas também pode produzir hipertrofia. Isso demonstra sobreposição entre adaptações, e não que hipertrofia, força e potência sejam conceitos idênticos.

As categorias continuam sendo úteis desde que sejam operacionalmente definidas. “Treinamento de potência”, por exemplo, pode descrever um programa no qual se priorizam elevada intenção de aceleração, baixa perda de velocidade, cargas específicas e exercícios nos quais a potência mecânica seja um desfecho central (Cormie, McGuigan et al. 2011). O termo não pressupõe ausência de força. A potência é produzida pela interação entre força e velocidade (Cormie, McGuigan et al. 2011).

O problema na demonstração mecânica

Para sustentar sua argumentação, o artigo utiliza a relação entre impulso e quantidade de movimento:

Essa expressão indica que uma mudança na quantidade de movimento depende do impulso da força resultante. Em seguida, os autores substituem a velocidade por deslocamento dividido pelo tempo e apresentam:

Essa derivação não está correta para um movimento iniciado do repouso e realizado sob aceleração constante. Nesse caso, o deslocamento deveria ser expresso como:

Além da ausência do fator 1/2, existe uma questão conceitual mais importante: a força relevante é a força resultante, e não simplesmente a força muscular, a força aplicada ou o pico de força medido durante o movimento.

Em um movimento vertical, por exemplo, a aceleração depende da diferença entre a força aplicada e o peso:

Também não é possível tratar movimentos humanos complexos como se a força permanecesse constante durante toda a execução. A força varia ao longo do tempo, assim como a aceleração e a velocidade. Existem fases de aceleração, desaceleração, alterações técnicas, contribuições elásticas e mudanças na coordenação entre segmentos.

Uma velocidade final maior indica que ocorreu alguma alteração na força resultante integrada ao longo do tempo. Entretanto, isso não significa necessariamente que o pico de força ou a força máxima do indivíduo aumentaram.

A nova trajetória de velocidade pode decorrer de maior força nas fases iniciais, aplicação de força durante mais tempo, melhor orientação da força, menor força de frenagem, alteração técnica ou melhor coordenação. Portanto, não é correto transformar uma alteração do impulso ou do perfil força–tempo em evidência automática de aumento da força máxima.

A potência pode aumentar sem aumento da força máxima?

A potência mecânica instantânea é definida pelo produto escalar entre força e velocidade:

Assim, a potência pode aumentar porque a força aumentou, porque a velocidade aumentou, porque ambas aumentaram ou porque a orientação entre os vetores de força e velocidade se tornou mais favorável.

Isso não significa que a força seja irrelevante. Ao contrário, não existe potência mecânica sem aplicação de força. O erro está em concluir que todo aumento de potência exige necessariamente aumento da força máxima ou do pico de força.

O artigo apresenta um exemplo individual no qual força de pico, taxa de desenvolvimento de força, velocidade e potência aumentaram após o treinamento. Esse exemplo demonstra que essas adaptações podem ocorrer simultaneamente. Não demonstra que esse seja o único mecanismo possível. Uma figura representativa de um indivíduo possui valor didático, mas não pode ser utilizada como prova universal de causalidade.

A velocidade é o único objetivo do treinamento resistido?

Os autores também afirmam que o único objetivo do treinamento resistido orientado ao desempenho seria aumentar a velocidade contra determinada carga absoluta. Essa definição pode fazer sentido para algumas tarefas esportivas, mas não descreve todos os objetivos possíveis do treinamento.

O treinamento resistido pode ser realizado para: a) aumentar força isométrica em ângulos específicos; b) aumentar massa muscular; c) aumentar resistência muscular localizada; d) melhorar a capacidade de sustentar força ou potência; d) aumentar a tolerância dos tecidos às cargas; e) produzir adaptações ósseas e tendíneas; f) preservar massa e função muscular no envelhecimento; g) auxiliar processos de reabilitação; h) aumentar a carga máxima que pode ser deslocada; i) modificar a capacidade de produzir força em intervalos temporais específicos.

Mesmo no esporte, nem todas as adaptações relevantes precisam aparecer imediatamente como maior velocidade da barra. Adaptações estruturais ou neurais podem ter valor preparatório e contribuir posteriormente para tarefas mais específicas (Cormie, McGuigan et al. 2011). Assim sendo, reduzir todo o processo de treinamento ao aumento da velocidade contra uma carga absoluta confunde o resultado final de determinadas modalidades esportivas com todos os objetivos intermediários necessários para alcançá-lo.

O que a velocidade realmente mede

A velocidade da barra é uma variável cinemática externa. Ela informa como a barra ou o implemento se deslocou, mas não mede diretamente: a) a força produzida por músculos individuais; b) os torques articulares; c) a contribuição de cada grupo muscular; d) a ativação neural; e) o estresse mecânico local; f) o grau de fadiga de cada músculo; g) o custo metabólico; h) o dano muscular; i) a adaptação futura produzida pela sessão.

A mesma velocidade pode ser obtida por diferentes estratégias de movimento. Alterações na amplitude, trajetória da barra, posição corporal e contribuição relativa das articulações podem modificar a interpretação dos dados. Além disso, os resultados dependem do equipamento utilizado e da métrica escolhida. Velocidade média, velocidade média propulsiva e velocidade de pico não são medidas intercambiáveis. Por isso, a velocidade deve ser interpretada dentro de condições rigorosamente padronizadas. Ela não fornece uma leitura direta e completa do organismo. Fornece uma medida objetiva do desempenho externo realizado naquele exercício.

Perda de velocidade não é sinônimo de esforço

A perda de velocidade ao longo de uma série é frequentemente utilizada como indicador de fadiga. Quanto maior a redução da velocidade em relação à primeira repetição, maior tende a ser o declínio do desempenho mecânico. Entretanto, fadiga, esforço e proximidade da falha não são sinônimos perfeitos.

Duas séries com a mesma perda percentual de velocidade podem diferir em carga relativa, número de repetições, duração, tempo sob tensão, desconforto, resposta metabólica e proximidade da falha muscular. A própria primeira repetição utilizada como referência pode variar. Caso ela seja anormalmente rápida, todas as repetições seguintes parecerão apresentar uma perda maior. Caso seja lenta por erro técnico, falta de concentração ou aquecimento insuficiente, a perda percentual será subestimada. A perda de velocidade é, portanto, uma medida válida do declínio do desempenho da barra durante a série. Não deve ser tratada como medida universal e exata do esforço fisiológico.

Desempenho diário não é efeito do treinamento

Outro problema aparece quando uma redução da velocidade contra a mesma carga é interpretada como efeito negativo do treinamento. Uma queda de velocidade em determinada sessão pode refletir fadiga aguda esperada, sono inadequado, dor, variação motivacional, alimentação, horário da avaliação, aquecimento insuficiente ou erro de medida. Esses fatores indicam o estado momentâneo de desempenho do indivíduo. Não demonstram necessariamente uma adaptação negativa.

Para concluir que o treinamento produziu um efeito crônico negativo, seria necessário avaliar tendências ao longo de várias sessões, considerar o erro típico da medida e padronizar as condições de avaliação. Uma medida isolada de velocidade pode ajudar a ajustar a sessão daquele dia. Ela não deve ser confundida automaticamente com uma avaliação longitudinal da eficácia do programa.

A crítica à periodização

O artigo também questiona o uso do termo periodização. Os autores estão corretos ao afirmar que chamar um programa de “periodizado” não garante que ele seja eficaz. Da mesma forma, dividir o treinamento em fases de hipertrofia, força e potência não significa que cada período produzirá apenas uma adaptação. Uma fase orientada à hipertrofia também pode aumentar força. Uma fase orientada à força pode produzir hipertrofia. Uma fase orientada à potência pode melhorar outras manifestações do desempenho neuromuscular. Entretanto, isso não torna o conceito de periodização inútil.

Programação é o processo amplo de selecionar, organizar e manipular exercícios, cargas, volumes, frequências e intervalos. Periodização pode ser entendida como uma estratégia específica de organização temporal dessas variáveis, geralmente com alterações deliberadas de ênfase ao longo do tempo. Assim sendo, as duas expressões não precisam ser concorrentes. Todo modelo periodizado é uma forma de programação, mas nem toda programação precisa apresentar uma estrutura temporal caracterizada como periodização. O problema não está necessariamente no termo. Está no uso de nomes sem descrição quantitativa das cargas realmente aplicadas.

Estamos realmente diante de um novo paradigma?

Um novo paradigma científico pressupõe uma transformação ampla na forma de compreender os fenômenos de determinada área. O monitoramento da velocidade não substitui as teorias de adaptação ao treinamento nem elimina a necessidade de avaliar força, potência, hipertrofia, desempenho esportivo e respostas fisiológicas.

A velocidade também não determina, por si só quais exercícios devem ser selecionados, quantas sessões devem ser realizadas, qual frequência é adequada, qual perda de velocidade é ideal, quanto volume deve ser aplicado, quanto descanso é necessário, quais adaptações ocorrerão e nem como o treinamento será transferido para o desempenho esportivo.

Portanto, o monitoramento da velocidade é mais adequadamente definido como uma tecnologia de mensuração e autorregulação do treinamento. Trata-se de uma ferramenta relevante, mas não de uma teoria geral capaz de substituir todas as demais formas de prescrição e avaliação.

Considerações finais

O artigo de González-Badillo e colaboradores (Gonzalez-Badillo, Sanchez-Medina et al. 2022) apresenta contribuições importantes. Sua crítica ao uso rígido da repetição máxima, ao número fixo de repetições e à ausência de controle do desempenho durante as séries é pertinente. O monitoramento da velocidade pode melhorar a qualidade da prescrição e fornecer informações objetivas sobre a resposta mecânica do indivíduo.

Entretanto, o artigo incorre em excessos conceituais. Todo treinamento resistido não precisa ser denominado treinamento de força máxima. Treinamento de potência, hipertrofia e resistência muscular permanecem categorias operacionalmente úteis quando seus objetivos e métodos são claramente definidos.

O aumento da potência não exige necessariamente aumento da força máxima. A perda de velocidade não representa uma medida completa do esforço. Uma alteração aguda da velocidade não demonstra, isoladamente, o efeito crônico do treinamento. E a monitorização da barra não substitui a avaliação de outras variáveis mecânicas, fisiológicas e funcionais.

A conclusão mais equilibrada é que a velocidade deve ser utilizada como parte de um sistema integrado de monitoramento. Ela pode complementar a carga absoluta, a porcentagem da repetição máxima, as repetições em reserva, a percepção de esforço, os testes de desempenho e as avaliações específicas da modalidade.

A velocidade é uma medida importante. Transformá-la na única explicação possível para o treinamento resistido, entretanto, não representa um avanço conceitual. Representa apenas a substituição de um reducionismo por outro.

Referências

Cormie, P., M. R. McGuigan and R. U. Newton (2011). "Developing maximal neuromuscular power: Part 1--biological basis of maximal power production." Sports Med 41(1): 17–38.

Cormie, P., M. R. McGuigan and R. U. Newton (2011). "Developing maximal neuromuscular power: part 2 - training considerations for improving maximal power production." Sports Med 41(2): 125–146.

Gonzalez-Badillo, J. J., L. Sanchez-Medina, J. Ribas-Serna and D. Rodriguez-Rosell (2022). "Toward a New Paradigm in Resistance Training by Means of Velocity Monitoring: A Critical and Challenging Narrative." Sports Med Open 8(1): 118.

 

Autor : Bernardo N. Ide