A revisão de Scott e colaboradores (2016)
discute um problema recorrente na prática do treinamento de força: a
dificuldade de quantificar, de forma válida e aplicável no cotidiano, o
“estímulo” realmente imposto por uma sessão. Os autores sustentam que essa
dificuldade decorre da natureza multifatorial do treinamento de força, no qual
a dose não é determinada apenas pela carga relativa prescrita pelo % da carga
de uma repetição máxima (%1RM), mas também pelo tipo de exercício, pelo volume
(repetições e séries), pelos intervalos interséries e pela velocidade de
execução. Assim, métodos simplificados que tratam “intensidade” apenas como
%1RM tendem a subrepresentar a complexidade do estresse imposto ao organismo e,
consequentemente, dificultam tanto o controle do processo quanto a
interpretação de respostas agudas e crônicas ao treinamento.
No enquadramento teórico apresentado,
“carga de treinamento” é colocada como um produto entre volume e intensidade,
mas os autores ressaltam que, no treinamento resistido, a intensidade da sessão
é um construto mais amplo do que “quão pesado” foi o peso utilizado. Eles
argumentam que o nível de esforço aplicado em uma série é parte central do
conceito (por exemplo, uma série levada à falha representa esforço máximo “para
aquela série”, independentemente de ser executada com 30% ou 80% de 1RM). Além
disso, a intensidade global da sessão é influenciada por variáveis como a
velocidade de execução e o tempo de recuperação entre séries, pois ambas
alteram de maneira substancial o estímulo neuromuscular e metabólico. Uma
consequência prática apontada é terminológica: em vez de rotular sessões como
“baixa/moderada/alta intensidade” com base apenas em %1RM, os autores
recomendam empregar linguagem que descreva mais precisamente a carga (p. ex.,
leve/moderada/pesada) e reservar “intensidade” para o entendimento integrado do
esforço e das condições de execução.
A revisão organiza os métodos de
monitoramento em categorias que, na prática, se complementam. Em “medidas
externas” (external load), os autores descrevem que a forma mecanicamente mais
rigorosa de quantificar “volume” seria calcular o trabalho mecânico (força ×
deslocamento, por repetição e por sessão). Eles citam evidências de que o
trabalho total pode discriminar melhor sessões com objetivos distintos (por
exemplo, hipertrofia, força, potência) do que métricas mais grosseiras. No
entanto, esse procedimento é considerado pouco viável no ambiente aplicado,
porque exige instrumentação (plataformas de força, transdutores de posição) e
análise repetição a repetição, com alto custo operacional. Com isso, a revisão
desloca o foco para métricas simplificadas que preservem utilidade prática.
A primeira alternativa discutida é o
“método de repetições”, no qual o volume é simplesmente a soma de repetições
realizadas em um exercício, sessão ou semana. O artigo enfatiza que essa
métrica, apesar de operacionalmente atrativa, falha em representar o estresse
real: duas sessões com o mesmo total de repetições podem impor estímulos muito
diferentes quando mudam a carga, a organização das séries e/ou a proximidade da
falha. Para demonstrar isso, os autores descrevem um exemplo conceitual (Figura
1 e Tabela 1) em que um mesmo atleta poderia realizar 30 repetições totais em
um cenário de hipertrofia (3×10 a 70% 1RM) e também em um cenário de força
(10×3 a 90% 1RM), mas seria inadequado concluir que o “volume” e o estímulo
foram equivalentes apenas porque o total de repetições coincidiu.
A segunda alternativa é o “volume load”,
calculado como séries × repetições × carga absoluta (kg). A revisão considera
essa métrica amplamente aplicável porque é simples de registrar e gera um
número único para representar o total de peso deslocado na sessão.
Adicionalmente, os autores mencionam evidências de que o volume load se
relaciona, em alguma medida, com indicadores de estresse interno durante
treinamento resistido. Contudo, a limitação central é comparativa: por ser
absoluto, ele não permite comparar adequadamente atletas com níveis distintos
de força. A própria revisão ilustra esse ponto ao mostrar que, para uma mesma
prescrição relativa (3×10 a 70% 1RM), dois atletas com 1RM diferentes
necessariamente apresentam cargas diferentes, mesmo tendo sido expostos a um
estímulo relativo semelhante.
Para contornar esse problema, os autores
descrevem o “volume load relativo ao 1RM”, substituindo a carga absoluta por
%1RM (séries × repetições × %1RM), produzindo unidades arbitrárias que permitem
comparações interindividuais quando a referência de força é conhecida. Porém, a
revisão aponta uma limitação adicional que é conceitualmente importante:
métricas baseadas apenas em %1RM não capturam a dificuldade real de uma série
quando se muda o número de repetições por série. Os autores argumentam que fazer
10 repetições com uma mesma carga impõe um custo fisiológico diferente de fazer
3 repetições com a mesma carga, mesmo que a tonelagem total do exercício seja
igual ao final.
A solução proposta para incorporar
“dificuldade” relativa ao número de repetições é o uso de um volume load
“baseado no RM específico” do intervalo de repetições, estimando a carga
equivalente (por equações de predição) para um dado número de repetições máximas
e expressando a carga utilizada como % desse RM específico. O artigo
exemplifica esse raciocínio usando a equação de Brzycki para estimar 3RM e 10RM
a partir do 1RM e, então, recalcular o volume de modo a refletir que 10
repetições com uma carga próxima do 10RM representa maior exigência do que 3
repetições com a mesma carga quando essa carga está distante do 3RM. Em outras
palavras, a revisão defende que o “estresse por série” depende do quão próximo
o esforço está do limite daquele intervalo de repetições, e não apenas do %1RM.
Apesar dessas melhorias, a revisão é
explícita ao afirmar que métricas externas ainda não resolvem aspectos
fundamentais: (1) intervalos interséries não entram nas equações, embora sejam
determinantes primários da intensidade global e alterem marcadamente respostas
como lactato; (2) velocidade de repetição também não é incorporada, e mudanças
na velocidade podem alterar o estímulo (por exemplo, sessões com intenção
explosiva vs. tempo controlado), levando o volume load a subestimar
determinadas demandas. Além disso, os autores lembram que, para tornar tais
métricas “relativas”, é necessário conhecer 1RM (ou outro RM) de múltiplos
exercícios, o que nem sempre é viável em programas complexos com muitos
movimentos e grandes grupos.
Diante dessas limitações, o artigo dedica
uma seção a “medidas internas” (internal load), com ênfase em escalas de
percepção de esforço (RPE). A revisão descreve o uso de RPE por série (set-RPE)
com diferentes escalas (Borg, CR-10 e OMNI específica para treinamento
resistido) e aponta que, embora o set-RPE seja sensível a diferenças de carga,
a interpretação pode ser distorcida se as condições de execução não forem
equivalentes (por exemplo, se séries em baixa carga não forem levadas a esforço
comparável). A revisão também menciona o uso de RPE “diferenciado”, no qual o
atleta atribui esforço percebido para músculos ativos versus corpo todo,
observando que o esforço local tende a ser reportado como maior do que o
esforço global. Do ponto de vista aplicado, entretanto, o artigo considera o
registro de RPE em todas as séries pouco viável em ambientes com muitos
atletas, por demanda logística e de tempo.
Como alternativa de maior aplicabilidade, a
revisão destaca o sRPE (session-RPE), no qual o atleta fornece uma única
classificação global da sessão. O texto argumenta que esse valor tende a
integrar, na percepção do atleta, não apenas a carga levantada, mas também o
volume, os intervalos e a velocidade, além do estado psicofisiológico do dia. O
artigo reforça um ponto metodológico: tradicionalmente o sRPE é coletado cerca
de 30 minutos após a sessão para reduzir o viés do “final” do treino; contudo,
evidências descritas indicam que 15 minutos pós-sessão ainda fornecem
estimativas confiáveis, enquanto coletas muito precoces (5–10 minutos) tendem a
inflacionar o valor por efeito da última série.
A revisão descreve ainda o “sRPE load”,
calculado como sRPE × duração da sessão (min), como uma forma operacional de
gerar uma métrica única de carga interna, comparável entre diferentes
modalidades (técnico-tático, condicionamento, resistência). Esse ponto é
central para contextos como esportes coletivos, nos quais a equipe realiza
múltiplos tipos de sessão ao longo da semana e o interesse é somar carga
interna semanal/microciclo em uma métrica comum. A partir do sRPE load, o
artigo menciona a possibilidade de derivar monotonia (média diária ÷
desvio-padrão semanal) e strain (produto entre carga e monotonia), destacando a
lógica de que menor variação (maior monotonia), combinada a alta carga, pode
sinalizar maior estresse global e potencial risco de respostas indesejadas.
Uma terceira dimensão discutida é o
monitoramento de bem-estar (wellness). O artigo relata que questionários
subjetivos são amplamente utilizados no alto rendimento, mas que muitos
instrumentos clássicos da literatura são pouco adotados por serem extensos e
pouco específicos; em contrapartida, treinadores frequentemente utilizam
questionários customizados com poucos itens. A revisão descreve um instrumento
simples (cinco domínios: fadiga percebida, qualidade do sono, dor muscular,
estresse e humor) com escala curta e possibilidade de somatório para um escore
global. Os autores destacam que esse tipo de medida pode ser sensível a
variações diárias de carga e pode acompanhar respostas neuromusculares e sinais
associados a períodos intensificados. A revisão também sugere, por pertinência
ao treinamento resistido, detalhar dor muscular por segmentos corporais, dado o
papel potencial de dano muscular e sua repercussão sobre função contrátil e
sobre a capacidade de realizar outras sessões (por exemplo, velocidade/sprint
quando há dor intensa em cadeia posterior). Ao mesmo tempo, o texto ressalta
que medidas de bem-estar não isolam o efeito do treinamento resistido, pois
refletem o estresse total (treino, competição e fatores extraesportivos),
exigindo interpretação contextual.
A revisão então aborda o monitoramento da
velocidade de repetição por tecnologias portáteis, especialmente transdutores
lineares de posição. A lógica é que, ao medir deslocamento no tempo, é possível
estimar velocidade concêntrica e aceleração, gerando indicadores objetivos do
desempenho das repetições. O artigo justifica essa estratégia pela relevância
da velocidade real para adaptações de potência e pela utilidade do feedback
imediato para aumentar intenção e qualidade do esforço em exercícios explosivos
(por exemplo, arremessos no supino, levantamentos olímpicos, saltos
carregados). Um ponto técnico importante destacado é que, embora a “intenção”
de mover explosivamente possa ser relevante, evidências citadas pela revisão
associam melhorias de potência à velocidade efetivamente atingida durante o
treino, o que torna o monitoramento um recurso de controle do estímulo.
Entre as aplicações avançadas, os autores
descrevem a construção de perfis carga–velocidade (load–velocity profiles),
baseados na relação aproximadamente linear entre carga relativa e velocidade
concêntrica média em cargas submáximas. A revisão aponta que esse perfil pode:
(1) ajudar a prescrever cargas para atingir velocidades-alvo; (2) monitorar
adaptações ao longo do tempo; (3) diferenciar atletas com 1RM semelhante, mas
desempenho distinto em cargas submáximas (um dos exemplos descritos é um caso
em que dois atletas com 1RM semelhante no supino exibem curvas diferentes, com
um apresentando velocidades superiores em submáximas, o que poderia ter
implicações para potência e desempenho esportivo).
Outro elemento é o conceito de “velocidade
mínima” associada à última repetição em séries até a falha, que a revisão
reporta como estável entre intensidades (para um mesmo exercício) e ao longo do
tempo, mesmo quando a força máxima muda. A partir disso, o artigo descreve uma
aplicação prática: usar algumas séries de aquecimento com esforço máximo em
cargas leves para estimar, naquele dia, a relação carga–velocidade e extrapolar
um 1RM “diário”, ajustando cargas conforme variações de prontidão associadas a
fadiga residual, dano muscular ou fatores psicológicos. Além disso, a revisão
menciona evidências de associações fortes entre perda de velocidade em séries e
marcadores de estresse metabólico (como lactato), sugerindo que a queda
progressiva da velocidade ao longo de repetições pode ser interpretada como
manifestação contínua de fadiga neuromuscular e poderia, no futuro, sustentar
“pontos de corte” por perda de velocidade para encerrar séries e controlar a
magnitude de fadiga. O próprio texto, contudo, adota cautela: reconhece que a
base científica aplicada para essas estratégias ainda é limitada e que a
relevância do monitoramento de velocidade depende do objetivo da fase (por
exemplo, em hipertrofia, quedas de velocidade seriam esperadas e monitorá-las
pode não agregar decisão prática).
Na síntese aplicada, os autores defendem um
modelo integrativo, pois “não existe bala de prata” para monitorar treinamento
com precisão perfeita. A recomendação é combinar estratégias subjetivas
(questionários curtos de bem-estar antes do treino; sRPE após o treino) com
estratégias objetivas selecionadas (volume load relativo em exercícios-chave;
monitoramento de velocidade quando houver repetições com esforço máximo),
ponderando restrições logísticas (tempo, número de atletas, equipamentos,
pessoal para análise). O artigo também discute operacionalização e gestão de
dados: digitalização via tablets/smartphones, centralização em banco de dados e
automatização de cálculos (por exemplo, em planilhas), além do uso prático de
sistemas de “red flags” por Z-score e representação em “semáforo”
(verde/âmbar/vermelho). Em paralelo, os autores reconhecem que a ciência ainda
é limitada para definir, com robustez, qual magnitude de mudança é “realmente”
significativa (smallest worthwhile change) em diferentes variáveis e
populações, e que decisões não deveriam ser tomadas apenas por um número, mas
usadas para orientar conversa com o atleta e julgamento contextual (“arte do
coaching”).
Referência: Scott BR,
Duthie GM, Thornton HR, Dascombe BJ. Training Monitoring for Resistance
Exercise: Theory and Applications. Sports Medicine.
2016;46:687–698.