Jiu-jítsu na “zona 2”: uma aplicação
inadequada dos modelos de treinamento de endurance
Recentemente, passou-se a recomendar que
praticantes de jiu-jítsu realizem treinamentos técnicos ou sessões de
preparação física na chamada “zona 2”. Em algumas propostas, o atleta deveria
controlar a intensidade do combate para manter a frequência cardíaca dentro
dessa faixa.
O problema não está na existência da zona 2
nem em sua eventual utilização na preparação física de atletas de combate. A
inconsistência aparece quando um modelo desenvolvido para organizar o
treinamento de endurance é transferido diretamente para uma modalidade
intermitente, como se descrevesse adequadamente suas demandas específicas.
O que significa treinar na zona 2?
Em nosso trabalho sobre os domínios de
intensidade (Macedo and Ide 2025), apresentamos três zonas de treinamento de endurance delimitadas
por dois limiares fisiológicos:
Essas zonas são habitualmente determinadas
por testes incrementais realizados em exercícios cíclicos, como corrida ou
ciclismo. Em cada estágio, a velocidade ou a potência externa é mantida
relativamente estável durante determinado período, permitindo a análise
integrada das respostas ventilatórias, metabólicas e cardiovasculares (Lourenco, Martins et al. 2011).
Portanto, essas zonas representam domínios
de intensidade associados ao treinamento de endurance. Em nosso artigo (Macedo and Ide 2025), utilizamos explicitamente a expressão endurance training zones.
O treinamento contínuo pode ser realizado principalmente na zona 1 e em parte
da zona 2, enquanto exercícios próximos ao limite superior da zona 2 ou acima
do segundo limiar geralmente exigem configurações intervaladas.
Assim, seria impreciso afirmar que a zona 2
se aplica exclusivamente ao treinamento contínuo. Dependendo da proximidade dos
limiares, da duração dos estímulos e da organização das pausas, ela também pode
integrar sessões intervaladas. Contudo, isso não transforma essa classificação
em um modelo universal para descrever qualquer modalidade esportiva.
O jiu-jítsu não apresenta intensidade
metabólica ou mecânica constante
Uma luta de jiu-jítsu não apresenta
produção de força, potência mecânica ou demanda metabólica estáveis. Durante o
combate, alternam-se ações técnicas de diferentes durações e intensidades,
contrações isométricas sustentadas, deslocamentos, disputas por posição,
tentativas de passagem, raspagem, projeção e finalização, além de períodos com
menor movimentação externa (Andreato, Lara et al. 2017).
A intermitência é, portanto, uma
característica estrutural da modalidade. As ações de curta duração e elevada
intensidade são intercaladas com períodos de menor atividade, sem que isso
represente necessariamente recuperação fisiológica completa. Mesmo em momentos
com pouca movimentação aparente, o atleta pode estar produzindo forças
consideráveis para manter posições, controlar o adversário ou resistir às ações
impostas.
Estudos de análise temporal e
técnico-tática mostram que as lutas apresentam alternância entre ações de
baixa, moderada e alta intensidade (Andreato, Follmer et al. 2016). Em uma investigação com combates de jiu-jítsu brasileiro, foi
observada uma relação geral entre períodos de esforço e interrupção próxima de
6:1, enquanto as ações classificadas como de alta intensidade apresentaram
duração média de aproximadamente quatro segundos (Andreato, Follmer et al. 2016).
Esses valores não devem ser convertidos
mecanicamente em uma prescrição universal, pois variam conforme nível
competitivo, categoria, estratégia, regras e características dos adversários.
Entretanto, demonstram que a luta não pode ser descrita como um exercício
contínuo realizado em intensidade moderada e constante.
Uma contribuição aeróbia elevada não
transforma a modalidade em exercício contínuo
A participação do metabolismo aeróbio no
jiu-jítsu é indiscutivelmente relevante. O metabolismo oxidativo contribui para
a manutenção do exercício durante todo o combate, para a recuperação entre
ações de maior intensidade e para a ressíntese de fosfocreatina durante os
períodos de menor demanda.
Entretanto, é necessário distinguir duas
afirmações:
A primeira afirmação é fisiologicamente
coerente. A segunda não decorre necessariamente da primeira.
Os sistemas de ressíntese de adenosina
trifosfato atuam simultaneamente. Mesmo durante ações de elevada intensidade,
existe contribuição oxidativa. Da mesma forma, a participação do metabolismo
glicolítico não desaparece durante atividades de menor intensidade. A
predominância relativa de determinado sistema não permite classificar toda a
modalidade a partir de uma única zona de endurance.
Portanto, reconhecer a importância da
capacidade aeróbia não autoriza concluir que o treinamento específico da luta
deva ser controlado para permanecer na zona 2.
Frequência cardíaca média não descreve
adequadamente a intensidade da luta
Outro problema ocorre quando o combate é
classificado exclusivamente pela frequência cardíaca média. Suponha que, ao
final de uma luta de seis minutos, a média da frequência cardíaca permaneça
dentro da faixa correspondente à zona 2 determinada em um teste de corrida.
Esse resultado não demonstra que o atleta
tenha permanecido fisiologicamente na zona 2 durante todo o combate.
Uma média pode ocultar sucessivos períodos
com demandas muito diferentes. O atleta pode alternar momentos de menor
atividade externa com ações de elevada produção de força, contrações
isométricas sustentadas, acelerações segmentares e tentativas técnicas de curta
duração e alta intensidade.
Além disso, a frequência cardíaca apresenta
determinada cinética de resposta. Ela não aumenta ou diminui instantaneamente
na mesma proporção das alterações da demanda mecânica. Ações muito intensas e
breves podem terminar antes que a frequência cardíaca alcance valores
proporcionais à exigência daquele momento.
No jiu-jítsu, a interpretação também é
dificultada pela presença de ações isométricas, compressões, alterações
posturais e possíveis restrições locais ao fluxo sanguíneo. Nessas condições, a
relação entre frequência cardíaca, consumo de oxigênio, produção de força e
demanda metabólica local torna-se mais complexa do que em um exercício cíclico
realizado em estado relativamente estável.
Consequentemente, afirmar que alguém “lutou
na zona 2” apenas porque apresentou determinada frequência cardíaca média
constitui uma extrapolação metodológica. O que pode ser afirmado é que a
resposta cardiovascular média permaneceu dentro de uma faixa previamente
estabelecida.
As zonas dependem do exercício utilizado
na avaliação
Outro aspecto frequentemente ignorado é a
especificidade do teste. Uma zona de frequência cardíaca determinada em uma
esteira não pode ser automaticamente transferida para o ciclismo, a luta ou o
treinamento de força.
A modalidade do exercício modifica:
Portanto, utilizar limiares identificados
durante uma corrida ou ciclismo para classificar a intensidade metabólica de
uma luta representa uma transferência que precisa ser demonstrada, e não
simplesmente presumida.
Quanto maior a diferença entre o teste e a
tarefa esportiva, maior deve ser a cautela na interpretação.
A zona 2 pode ser útil para atletas de
jiu-jítsu?
Sim. Contudo, essa é uma questão diferente.
Um atleta de jiu-jítsu pode realizar
corrida, ciclismo, remo ou outro exercício cíclico na zona 2 para desenvolver
componentes da aptidão aeróbia, aumentar o volume de treinamento com menor
demanda neuromuscular ou complementar outras sessões de preparação física.
Nesse contexto, utiliza-se uma ferramenta
de preparação física geral. O objetivo não é reproduzir a luta, mas promover
adaptações que possam contribuir indiretamente para o desempenho, como aumento
da capacidade oxidativa muscular, melhora da função mitocondrial e maior
capacidade de recuperação entre ações intensas.
A preparação física não precisa imitar
continuamente os gestos e a estrutura temporal da modalidade. Exercícios gerais
podem ser úteis quando o estímulo produzido e o objetivo pretendido estão
claramente definidos.
O erro consiste em apresentar o treinamento
contínuo na zona 2 como reprodução das demandas específicas do combate.
Um exercício contínuo em zona 2 pode
desenvolver adaptações associadas ao metabolismo oxidativo. Por outro lado, a
capacidade de repetir ações intensas durante uma luta exige também estímulos
com alternância de esforços, recuperação incompleta, produção elevada de força
e organização temporal compatível com as demandas competitivas.
São componentes relacionados, mas não
equivalentes.
O problema não é a zona 2, mas sua
aplicação sem análise da modalidade
Antes de prescrever qualquer zona de
treinamento, algumas questões precisam ser respondidas:
Qual capacidade fisiológica se pretende
desenvolver? Como os limiares foram determinados? Em qual exercício o teste foi
realizado? A sessão busca desenvolver condicionamento geral ou reproduzir
demandas específicas? A frequência cardíaca é uma variável suficiente para
controlar o estímulo?
Sem essas respostas, “treinar jiu-jítsu na
zona 2” torna-se uma expressão de significado fisiológico impreciso.
A zona 2 pode integrar a preparação de um
atleta de jiu-jítsu, particularmente por meio de exercícios de endurance
utilizados como treinamento geral. Entretanto, ela não deve ser apresentada
como a zona específica da modalidade nem como substituta do treinamento
intermitente.
O jiu-jítsu possui contribuição aeróbia
relevante, mas sua estrutura continua caracterizada pela alternância de ações
com diferentes intensidades, durações, tipos de contração e demandas mecânicas.
Prescrever treinamento não consiste em
selecionar uma zona que esteja em evidência. Consiste em identificar o
objetivo, compreender as limitações do método utilizado e relacionar o estímulo
aplicado às demandas reais da modalidade.
Referências
Andreato, L. V., B.
Follmer, C. L. Celidonio and A. d. S. Honorato (2016). "Brazilian
Jiu-Jitsu Combat Among Different Categories: Time-Motion and Physiology. A
Systematic Review." Strength & Conditioning Journal 38(6): 44–54.
Andreato,
L. V., F. J. D. Lara, A. Andrade and B. H. M. Branco (2017). "Physical and
Physiological Profiles of Brazilian Jiu-Jitsu Athletes: a Systematic
Review." Sports Med Open 3(1):
9.
Lourenco,
T. F., L. E. Martins, L. S. Tessutti, R. Brenzikofer and D. V. Macedo (2011).
"Reproducibility of an incremental treadmill VO(2)max test with gas
exchange analysis for runners." J Strength Cond Res 25(7): 1994–1999.
Macedo, D. V. and B. N. Ide
(2025). "Educational strategies for teaching metabolic profiles across
three endurance training zones." Adv Physiol Educ 49(6): 331–337.