Uma nova revisão sistemática com meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine examinou se testes simples de aptidão muscular, aplicáveis em campo e de baixo custo, podem predizer o aparecimento futuro de condições crônicas de saúde em adultos. O foco da análise recaiu principalmente sobre dois testes: a força de preensão manual e o teste de sentar e levantar da cadeira por cinco repetições. A principal conclusão foi que melhores níveis de desempenho nesses testes se associam a menor risco futuro de múltiplos desfechos clínicos. Trata-se, portanto, de evidência prognóstica, e não de demonstração causal.
O estudo teve desenho de revisão sistemática com meta-análise de estudos de coorte. Os autores pesquisaram PubMed, Web of Science, SPORTDiscus, Scopus, CINAHL, Epistemonikos e Google Scholar, incluindo adultos com 18 anos ou mais. Foram identificados 155 estudos elegíveis para a revisão sistemática, dos quais 94 entraram na meta-análise. Os trabalhos incluídos foram publicados entre 1999 e 2024, com tamanhos amostrais variando de 24 a 502.293 participantes e seguimento entre 1,5 e 25,3 anos. Os desfechos foram agrupados em 12 condições de longo prazo, incluindo doenças cardiovasculares, câncer, diabetes tipo 2, doenças respiratórias, comprometimentos musculoesqueléticos, incapacidade funcional, ansiedade, depressão, declínio cognitivo, demência, doença de Parkinson e qualidade de vida relacionada à saúde.
Um aspecto importante é que, entre todos os testes de campo encontrados na literatura, apenas dois apareceram de forma consistente: a preensão manual e o chair-stand test. A preensão manual foi, de longe, o teste mais estudado, presente em 145 estudos. O chair-stand apareceu em 36 estudos, sendo a versão de cinco repetições a mais frequente, com 30 trabalhos. Isso já revela um dado central: quando se fala em uso clínico e epidemiológico de testes simples de força muscular, a literatura atual está fortemente concentrada na preensão manual e, em menor escala, no teste de sentar e levantar.
A análise da força de preensão manual comparando os indivíduos com maiores valores versus os com menores valores mostrou associações consistentes com menor risco de várias condições. Em termos quantitativos, os indivíduos no estrato mais alto de preensão manual apresentaram odds ratios de 0,73 para doenças cardiovasculares, 0,79 para diabetes tipo 2, 0,65 para comprometimento musculoesquelético, 0,57 para incapacidade funcional, 0,79 para ansiedade, 0,70 para depressão, 0,57 para declínio cognitivo, 0,62 para demência e 0,53 para doença de Parkinson. Em termos práticos, isso corresponde a reduções relativas aproximadas de 27 por cento, 21 por cento, 35 por cento, 43 por cento, 21 por cento, 30 por cento, 43 por cento, 38 por cento e 47 por cento, respectivamente, quando se comparam os grupos extremos. Os intervalos de confiança também foram estatisticamente compatíveis com menor risco para esses desfechos.
Quando a preensão manual foi analisada como variável contínua, cada aumento de 5 kg se associou a menor risco de várias condições de saúde. Os valores foram OR=0,93 para doenças cardiovasculares, OR=0,95 para diabetes tipo 2, OR=0,92 para comprometimento musculoesquelético, OR=0,79 para incapacidade funcional, OR=0,94 para depressão, OR=0,93 para declínio cognitivo, OR=0,87 para demência e OR=0,86 para doença de Parkinson. Isso significa que incrementos relativamente modestos na força de preensão já se associaram a reduções de risco da ordem de 5 por cento a 21 por cento, a depender do desfecho analisado. Em contrapartida, não houve associação estatisticamente significativa para câncer, com OR=1,03, nem para doenças respiratórias, com OR=0,91. Portanto, a literatura compilada não sustenta, neste momento, um valor prognóstico robusto da preensão manual para todos os desfechos indistintamente.
Os autores destacam, inclusive, que um aumento de 5 kg na preensão manual supera a diferença mínima clinicamente importante descrita para essa medida, estimada em aproximadamente 3 a 5 kg. Além disso, argumentam que uma redução de cerca de 7 por cento no risco cardiovascular por incremento de 5 kg, embora pareça modesta em nível individual, pode ser clinicamente relevante em nível populacional. Esse é um ponto importante para a prática clínica e para a saúde pública: pequenas mudanças em marcadores simples, quando observadas em grandes populações, podem ter impacto substancial em número absoluto de casos prevenidos e em custos de saúde.
O segundo teste com relevância prognóstica foi o teste de sentar e levantar da cadeira por cinco repetições. Comparando os melhores versus os piores desempenhos, observou-se menor risco de diabetes tipo 2, com OR=0,80, comprometimento musculoesquelético, com OR=0,52, incapacidade funcional, com OR=0,58, depressão, com OR=0,63, e demência, com OR=0,68. Portanto, o melhor desempenho nesse teste associou-se a reduções relativas aproximadas de 20 por cento, 48 por cento, 42 por cento, 37 por cento e 32 por cento, respectivamente. Quando a variável foi analisada de forma contínua, cada redução de 1 segundo no tempo do teste se associou a OR=0,94 para comprometimento musculoesquelético, isto é, aproximadamente 6 por cento menor risco para esse desfecho.
É importante notar que o teste de sentar e levantar foi menos representado na literatura do que a preensão manual. Apenas 16 estudos compuseram a meta-análise comparando melhores versus piores categorias, e havia grande variabilidade nos pontos de corte usados para definir bom e mau desempenho, com valores do melhor desempenho variando de menos de 6,8 s a menos de 17,0 s, e do pior desempenho variando de 11,2 s ou mais até 17,0 s ou mais. Essa heterogeneidade metodológica limita a padronização de interpretações e sugere que ainda há necessidade de maior uniformidade nos protocolos.
No que diz respeito à qualidade metodológica, os resultados foram globalmente consistentes. Todos os estudos pontuaram pelo menos 5 na escala Newcastle-Ottawa, 92,6 por cento tiveram pontuação superior a 7 e a média foi 8, o que indica, em geral, boa qualidade metodológica. A avaliação de risco de viés também apontou baixo risco na maior parte dos estudos. Ainda assim, havia preocupações residuais, principalmente em relação ao controle incompleto de confundidores e, em alguns desfechos, ao uso de medidas autorreferidas em vez de desfechos clinicamente confirmados.
Esse ponto se conecta diretamente ao grau de certeza da evidência. Pela abordagem GRADE, a maior parte dos desfechos apresentou certeza baixa ou muito baixa. As exceções mais sólidas foram diabetes tipo 2 e demência, que atingiram certeza moderada tanto para a preensão manual quanto para o teste de sentar e levantar. Para a preensão manual, doenças cardiovasculares, câncer, incapacidade e ansiedade ficaram com certeza baixa; doenças respiratórias, comprometimento musculoesquelético, depressão, declínio cognitivo e Parkinson ficaram com certeza muito baixa; diabetes tipo 2 e demência atingiram certeza moderada. Para o teste de sentar e levantar, diabetes tipo 2 e demência tiveram certeza moderada, comprometimento musculoesquelético e incapacidade tiveram certeza baixa, e depressão teve certeza muito baixa. Portanto, embora a direção geral das associações seja favorável, a confiança no tamanho exato de vários efeitos ainda é limitada.
As análises de subgrupos mostraram que as associações foram, em linhas gerais, consistentes entre sexos e faixas etárias, mas com algumas diferenças relevantes. Segundo a discussão dos autores, as associações entre maior força de preensão e menor risco de comprometimento musculoesquelético, incapacidade, declínio cognitivo e demência tenderam a ser mais fortes em idosos, enquanto a associação com doença cardiovascular foi mais pronunciada em adultos de meia-idade. Além disso, os autores relatam associações mais marcantes para incapacidade, depressão e declínio cognitivo entre mulheres, e para diabetes tipo 2 e comprometimento musculoesquelético entre homens. Essas diferenças, contudo, não devem ser tratadas como definitivas, mas como indícios de possíveis vias biológicas e contextuais distintas entre subgrupos populacionais.
Outro aspecto relevante é a heterogeneidade estatística. Em algumas análises, os valores de I² foram elevados, superando 75 por cento, especialmente para Parkinson, doenças respiratórias, comprometimento musculoesquelético, incapacidade e depressão em certas modelagens com preensão manual, além de comprometimento musculoesquelético na análise contínua do chair-stand. Isso significa que parte importante da variabilidade dos resultados não se deve ao acaso, mas provavelmente a diferenças entre os estudos, como características da amostra, composição por sexo, estado de saúde basal, forma de medir os desfechos, tempo de seguimento e covariáveis usadas nos ajustes. Por essa razão, seria incorreto transformar esses números em pontos de corte universais ou em algoritmos clínicos rígidos sem validação adicional.
Do ponto de vista clínico, a principal contribuição do estudo é reforçar a utilidade de testes muito simples como ferramentas de estratificação de risco. A preensão manual pode ser realizada em menos de um minuto com dinamômetro portátil, enquanto o teste de sentar e levantar por cinco repetições geralmente exige apenas uma cadeira e poucos segundos. Os autores defendem que ambos podem ser incorporados à prática clínica de rotina em adultos e idosos, sobretudo porque são baratos, rápidos, não invasivos e escaláveis. Ainda assim, a interpretação adequada exige cautela: esses testes não diagnosticam doenças, mas ajudam a identificar indivíduos com maior ou menor probabilidade futura de desenvolver determinados agravos.
Há, porém, limitações importantes. Primeiro, a revisão mostra mais claramente o valor prognóstico da preensão manual do que de outros testes, porque a literatura sobre outras medidas é escassa. Segundo, a própria classificação dos desfechos agrupou entidades clínicas heterogêneas dentro de categorias amplas, o que pode reduzir a precisão clínica das estimativas. Terceiro, muitos resultados derivam de estudos observacionais, de modo que a presença de maior força muscular pode estar funcionando também como marcador integrado de melhor estado geral de saúde, melhor nível de atividade física, melhor estado nutricional, menor fragilidade e menor carga de comorbidades. Em outras palavras, a força muscular provavelmente não deve ser entendida apenas como agente isolado, mas como indicador fenotípico global de reserva funcional e de resiliência biológica.
Em síntese, esta meta-análise sustenta que a força de preensão manual e, em menor escala, o desempenho no teste de sentar e levantar da cadeira apresentam valor prognóstico para múltiplas condições de saúde em adultos. A preensão manual foi o marcador mais amplamente estudado e mostrou associações consistentes com doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, comprometimento musculoesquelético, incapacidade, ansiedade, depressão, declínio cognitivo, demência e doença de Parkinson. O teste de sentar e levantar mostrou associação com diabetes tipo 2, comprometimento musculoesquelético, incapacidade, depressão e demência. No entanto, a força da evidência variou de muito baixa a moderada, e os resultados devem ser interpretados como associações prospectivas, não como prova causal. Ainda assim, o trabalho reforça que medidas simples de força muscular podem ocupar espaço relevante na triagem clínica, no monitoramento funcional e na identificação precoce de indivíduos sob maior risco de adoecimento no longo prazo.
Referência: Marín-Jiménez N, Bizzozero-Peroni B, Molina-Garcia P, et al. Clinical importance of simple muscular fitness tests to predict long-term health conditions: a systematic review and meta-analysis of 94 cohort studies. British Journal of Sports Medicine. 2026. doi:10.1136/bjsports-2024-109173.