Dietas para redução do peso corporal: o que diz o novo posicionamento da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva?

  • 03-11-2026

Dietas para redução do peso corporal: o que diz o novo posicionamento da Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva?

Uma análise das evidências científicas sobre restrição energética, jejum intermitente, ingestão de proteínas, composição corporal e adaptações metabólicas ao emagrecimento.

Em outubro de 2026, a International Society of Sports Nutrition (ISSN) publicou um novo posicionamento científico sobre estratégias nutricionais destinadas à redução do peso corporal. O documento, elaborado por pesquisadores como Alan Aragon, Brad Schoenfeld, Bill Campbell e Jose Antonio, apresenta 15 recomendações fundamentadas na análise da literatura científica.

O objetivo da publicação foi examinar os efeitos de diferentes estratégias alimentares sobre a redução do peso e da gordura corporal, considerando também a preservação da massa magra, as adaptações fisiológicas à restrição energética e a manutenção dos resultados em longo prazo.

Trata-se de um posicionamento baseado em revisão crítica da literatura, e não de um estudo experimental original. Os autores priorizaram revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos randomizados, além de evidências mecanísticas relevantes.

A seguir, apresentamos os principais aspectos discutidos no documento.

1. O déficit energético continua sendo o principal determinante da redução do peso corporal

Um dos pontos centrais do posicionamento é que a redução sustentada do peso corporal exige a manutenção de um balanço energético negativo, caracterizado por um consumo energético inferior ao gasto energético.

Entretanto, a magnitude desse déficit influencia a velocidade da perda de peso e pode modificar as alterações na composição corporal.

Os autores discutem três estratégias:

  • Dietas de muito baixo valor energético: fornecem menos de 800 kcal/dia e produzem perdas de peso expressivas em períodos relativamente curtos.

  • Dietas de baixo valor energético: fornecem aproximadamente 800 a 1.200 kcal/dia.

  • Dietas com restrição energética menos agressiva: utilizam reduções mais moderadas na ingestão energética, geralmente com maior flexibilidade alimentar.

As estratégias mais restritivas podem produzir maior redução do peso corporal inicialmente. Entretanto, essa vantagem não se traduz necessariamente em resultados superiores no longo prazo.

Além disso, restrições energéticas acentuadas podem aumentar o risco de perda de massa magra, inadequações nutricionais e comprometimento do desempenho físico.

Os autores ressaltam que essas estratégias podem ter aplicações clínicas específicas, particularmente no tratamento da obesidade, mas não devem ser generalizadas para indivíduos fisicamente ativos ou atletas.

Em populações esportivas, a revisão apresenta evidências favoráveis a reduções graduais do peso, frequentemente próximas de 0,5% a 1% da massa corporal por semana, quando o objetivo inclui preservar a massa magra e o desempenho físico.

2. Jejum intermitente é superior à restrição energética contínua?

O documento analisa diferentes modalidades de jejum intermitente, incluindo restrição da alimentação a determinadas janelas do dia, jejum em dias alternados e estratégias com dois dias de restrição alimentar por semana.

A principal conclusão é que essas abordagens, em geral, não apresentam vantagens consistentes sobre a restrição energética contínua para a redução do peso corporal e da gordura corporal.

Embora determinados estudos identifiquem pequenas diferenças favoráveis a algumas modalidades de jejum, os resultados não demonstram superioridade generalizada quando a ingestão energética é comparável.

Algumas modalidades de jejum em dias alternados podem produzir reduções discretamente maiores do peso corporal, mas também podem aumentar o risco de perda de massa magra, dependendo da ingestão proteica e da prática de treinamento de força.

Portanto, o jejum intermitente pode ser uma estratégia viável para indivíduos que preferem concentrar suas refeições em determinados períodos, mas seus resultados não parecem depender de alguma propriedade metabólica exclusiva do jejum.

Sua eficácia está relacionada, principalmente, à capacidade de promover e sustentar um déficit energético.

3. A frequência das refeições influencia o emagrecimento?

Outro aspecto discutido é a hipótese de que realizar várias pequenas refeições ao longo do dia aumentaria o gasto energético e favoreceria a redução do peso corporal.

Segundo a revisão, os estudos não demonstram vantagens consistentes de frequências alimentares mais elevadas sobre frequências menores, quando a ingestão energética total é considerada.

Assim, realizar três, quatro, cinco ou mais refeições diariamente não determina, isoladamente, maior redução do peso corporal.

Entretanto, existe uma distinção entre a frequência das refeições e a distribuição da ingestão proteica.

Em indivíduos fisicamente ativos, especialmente durante períodos prolongados de restrição energética, distribuir as proteínas em pelo menos três refeições ou ocasiões alimentares pode favorecer a preservação da massa magra.

Ainda assim, os autores ressaltam que a ingestão proteica diária total apresenta maior importância do que sua distribuição ao longo do dia.

4. Ingestão de proteínas e treinamento de força: estratégias para preservar a massa muscular

Um dos aspectos mais relevantes da publicação é a discussão sobre a qualidade da perda de peso.

Reduzir o peso corporal não significa necessariamente reduzir apenas gordura. Dependendo da estratégia utilizada, também podem ocorrer perdas importantes de tecido magro.

Nesse contexto, os autores destacam o papel da ingestão adequada de proteínas e do treinamento de força.

A revisão apresenta diferentes faixas de ingestão proteica conforme as características da população:

População geral: aproximadamente 1,2 a 1,6 g de proteínas por quilograma de massa corporal diariamente.

Indivíduos que realizam treinamento de força: aproximadamente 1,6 a 2,2 g/kg/dia, faixa que pode favorecer as respostas anabólicas musculares.

Indivíduos relativamente magros, treinados em força e submetidos à restrição energética: ingestões entre 1,9 e 3,2 g/kg/dia podem favorecer a preservação da massa livre de gordura.

Essas recomendações não representam necessidades universais. Particularmente em indivíduos com obesidade, a utilização da massa corporal atual para calcular a ingestão proteica pode superestimar as necessidades, sendo mais apropriado considerar uma massa corporal de referência ou objetivo, conforme o contexto.

O posicionamento também destaca que o treinamento de força pode atenuar a perda de massa magra associada ao déficit energético.

A combinação entre treinamento de força e ingestão proteica suficiente constitui, portanto, uma estratégia importante para preservar as adaptações neuromusculares e a composição corporal durante programas de emagrecimento.

5. Dietas com pouco carboidrato são melhores do que dietas com pouca gordura?

A comparação entre dietas com restrição de carboidratos (low-carb) e dietas com restrição de gorduras (low-fat) ocupa uma parte importante do documento.

Os autores destacam que algumas revisões sistemáticas identificaram maior redução inicial do peso corporal com dietas pobres em carboidratos.

Entretanto, essa diferença tende a diminuir com o prolongamento das intervenções.

Uma parte da redução inicial do peso corporal em dietas com poucos carboidratos decorre da diminuição das reservas de glicogênio e da água corporal associada.

Consequentemente, uma redução maior do peso na balança não significa necessariamente uma perda proporcionalmente maior de gordura corporal.

Um exemplo apresentado no documento é o estudo DIETFITS, que comparou dietas saudáveis com baixa ingestão de carboidratos ou de gorduras durante 12 meses.

Ao final da intervenção, os participantes apresentaram reduções médias de aproximadamente 5,29 kg e 5,99 kg, respectivamente, sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos.

Dessa forma, a literatura analisada não demonstra superioridade consistente de uma distribuição específica de carboidratos e gorduras para a perda de gordura corporal no longo prazo.

A escolha da estratégia alimentar deve considerar as preferências individuais, a qualidade nutricional, os objetivos e a capacidade de adesão ao programa.

6. E quanto às dietas cetogênicas?

As dietas cetogênicas, caracterizadas por uma restrição acentuada da ingestão de carboidratos, também são discutidas.

Essas estratégias podem produzir reduções significativas no peso e na gordura corporal.

Entretanto, a maior oxidação de gorduras observada durante a cetose nutricional não deve ser confundida com uma capacidade necessariamente superior de reduzir a gordura corporal.

Quando a ingestão energética e proteica é controlada, os estudos não demonstram vantagens consistentes das dietas cetogênicas sobre outras estratégias alimentares para a perda de gordura.

Outro aspecto importante é que dietas cetogênicas frequentemente apresentam maiores reduções da massa livre de gordura, especialmente em intervenções de curta duração.

Contudo, essas alterações precisam ser interpretadas cuidadosamente, pois a redução das reservas de glicogênio e da água corporal pode influenciar os resultados das avaliações de composição corporal.

Portanto, reduções na massa livre de gordura não devem ser automaticamente interpretadas como perda de tecido muscular contrátil.

7. O organismo se adapta à redução do peso corporal?

A publicação também aborda as adaptações fisiológicas e comportamentais que ocorrem durante períodos prolongados de restrição energética.

À medida que o peso corporal diminui, o gasto energético também tende a ser reduzido.

Parte dessa redução pode ser explicada pela menor massa corporal e pelas mudanças na composição dos tecidos.

Entretanto, podem ocorrer outras adaptações, incluindo alterações hormonais, aumento do apetite e redução da atividade física espontânea.

Um conceito importante é a termogênese adaptativa, definida como uma redução do gasto energético de repouso superior àquela prevista pelas alterações na composição corporal.

Os autores ressaltam que esse fenômeno pode ocorrer durante o emagrecimento, mas não constitui uma resposta inevitável ou necessariamente permanente.

Além disso, sua magnitude pode diminuir após um período de estabilização do peso corporal.

Outro componente relevante é a termogênese associada às atividades físicas não estruturadas (NEAT), que compreende o gasto energético relacionado aos movimentos cotidianos que não fazem parte das sessões formais de exercício.

Durante a restrição energética, algumas pessoas podem reduzir espontaneamente seus movimentos e deslocamentos cotidianos, contribuindo para a diminuição do gasto energético total.

Essas respostas ajudam a explicar por que a continuidade da redução do peso corporal pode se tornar progressivamente mais difícil.

8. Por que ocorrem os platôs de emagrecimento?

Os autores discutem que a estabilização do peso corporal pode resultar de diferentes fatores.

Entre eles estão as adaptações fisiológicas que reduzem o gasto energético, alterações na ingestão alimentar, diminuição da atividade física espontânea e dificuldades de adesão ao planejamento nutricional.

Entretanto, é necessário distinguir uma verdadeira estabilização do peso de flutuações temporárias relacionadas à água corporal, ao conteúdo gastrointestinal e a outras variações fisiológicas.

Também é importante considerar que a estabilização do peso corporal não significa obrigatoriamente ausência de redução da gordura corporal.

Indivíduos submetidos ao treinamento de força podem apresentar alterações favoráveis da composição corporal mesmo quando a massa corporal total permanece relativamente constante.

Nesse contexto, o acompanhamento das tendências do peso e de outras medidas antropométricas pode fornecer informações complementares.

O documento ainda apresenta uma consideração importante: períodos de estabilização podem ser utilizados para desenvolver estratégias de manutenção dos resultados alcançados, em vez de serem interpretados exclusivamente como fracassos do processo de emagrecimento.

9. Considerações finais

O novo posicionamento da ISSN reforça que diferentes estratégias alimentares podem ser eficazes para a redução do peso corporal, desde que produzam um déficit energético sustentado.

Entretanto, o sucesso de uma intervenção não deve ser avaliado exclusivamente pela quantidade de peso perdido.

A preservação da massa muscular, a manutenção do desempenho físico, a adequação nutricional e a capacidade de sustentar os resultados ao longo do tempo também precisam ser consideradas.

Entre os principais aspectos discutidos estão a ausência de superioridade universal de uma dieta específica, a importância da ingestão proteica adequada e o papel do treinamento de força na preservação da massa magra.

As adaptações metabólicas e comportamentais ao emagrecimento também precisam ser consideradas para compreender a trajetória da redução do peso corporal e suas possíveis limitações.

É importante destacar que o documento apresenta um consenso científico baseado em revisão crítica da literatura, e não resultados de um único experimento. Além disso, parte das evidências provém de populações com sobrepeso e obesidade, exigindo cautela na extrapolação para atletas e indivíduos com baixos percentuais de gordura corporal.

A principal mensagem é que reduzir o peso corporal e otimizar a composição corporal não são necessariamente a mesma coisa.

Para profissionais da saúde, da nutrição e do treinamento físico, compreender essa distinção é fundamental para interpretar os resultados das intervenções e individualizar as estratégias utilizadas.

Referência bibliográfica

Aragon AA, Campbell BI, Schoenfeld BJ, Stout JR, Kalman D, Arciero PJ, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: diets for body weight reduction. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2026;23(1):2740266. https://doi.org/10.1080/15502783.2026.2740266

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