Complementar o treinamento com exercícios em instabilidade atenua o desempenho neuromuscular

  • 21-01-2026

A investigação analisou o impacto de 10 semanas de treinamento de membros inferiores em superfície instável sobre marcadores clássicos de desempenho atlético em atletas treinados, comparando-o a um protocolo idêntico em volume, porém realizado em superfície estável. O estudo foi conduzido em um contexto aplicado, com atletas de elite universitária, e buscou responder a uma questão central: substituir (ou inserir) exercícios de membros inferiores em superfícies instáveis dentro de um programa convencional melhora, piora ou não altera o desempenho em tarefas explosivas e de velocidade?

Contexto e justificativa científica

O treinamento em superfícies instáveis (unstable surface training, UST) é amplamente difundido fora do contexto clínico, frequentemente com a promessa de aumento de “equilíbrio”, “propriocepção” e “controle neuromuscular”, supostamente com transferência para tarefas esportivas. Contudo, a literatura disponível até então se concentrava sobretudo em indivíduos destreinados e/ou populações em reabilitação, em especial com déficits proprioceptivos. O presente trabalho avaliou, de modo controlado, atletas saudáveis e treinados, em que tais déficits não eram esperados como condição de base, testando diretamente a hipótese de que o UST poderia gerar mudanças diferenciadas em desempenho quando comparado ao treinamento tradicional em superfície estável.

Amostra e desenho experimental

Participaram 19 atletas saudáveis e treinados (18–23 anos), integrantes de uma equipe masculina de futebol da NCAA Divisão I. Todos tinham ≥ 6 meses de experiência em treinamento resistido, sem envolvimento prévio com UST e sem histórico recente (últimos 6 meses) de entorse de tornozelo.

O desenho foi pré-teste vs. pós-teste, com grupo controle, e alocação após pareamento por idade e posição (goleiro, defensor, meio-campista e atacante), reduzindo o risco de vieses associados a demandas distintas de treino/jogo.

  • Grupo instável (US): n = 10

  • Grupo estável (ST): n = 9

Intervenção de treinamento

A intervenção durou 10 semanas (incluindo 1 semana de pausa após a semana 4) e totalizou 27 sessões. Ambos os grupos seguiram o mesmo programa normal de força e condicionamento da equipe; a diferença foi que, em cada sessão, um exercício suplementar de membros inferiores era realizado:

  • no grupo US, sobre 1–2 discos infláveis de borracha (Dyna-Disc; 14 polegadas de diâmetro);

  • no grupo ST, sobre superfície estável (solo/bench), executando o mesmo exercício.

Um ponto metodológico relevante é que os autores procuraram replicar o cenário real de adoção de UST: as cargas eram prescritas como percentual de 1RM estimada específico para cada condição (instável vs. estável). Assim, o estudo não “forçou” o grupo instável a usar cargas do ambiente estável; em vez disso, incorporou a redução de capacidade de força típica da instabilidade como parte do fenômeno avaliado.

Os exercícios suplementares variaram conforme a periodização não linear da equipe, incluindo variações de agachamentos, deadlifts, lunges, single-leg squats e tarefas de equilíbrio unipodal, com 2–5 séries de 5–15 repetições (ou tempo-alvo, quando aplicável).

Desfechos de desempenho e procedimentos de teste

Os testes foram aplicados no pré e pós-intervenção em uma única sessão, na ordem:

  1. Bounce Drop Jump (BDJ): indicador do uso do ciclo alongamento–encurtamento (CAE) de curta duração (contato ≤ 250 ms), com ênfase em reatividade e minimização do tempo de contato.

  2. Countermovement Jump (CMJ): indicador do CAE de longa duração (contato ≥ 250 ms), com amortização mais longa.

  3. Sprint 40 jardas, com extração do tempo de 10 jardas (aceleração inicial), medidos por fotocélulas/sensores automáticos.

  4. T-test: teste de agilidade com mudanças de direção (aceleração, desaceleração e deslocamentos laterais).

A altura dos saltos foi obtida por sistema de alcance vertical (Vertec) e convertida em potência de pico predita (W) usando equações previamente descritas (Sayers et al.), para contemplar diferenças de massa corporal.

Tratamento estatístico

Os dados foram analisados em software estatístico (SPSS). Antes das análises principais, os autores reportaram: verificação de outliers e pressupostos; transformação log10 para adequação às premissas; e remoção de outliers. O modelo central foi uma ANOVA de medidas repetidas 2 × 2 (grupo × tempo), seguida por testes pareados com correção de alfa quando necessário. A potência estatística reportada para o tamanho amostral variou de 0,67 a 0,82.

Resultados quantitativos principais

1) Desempenho de salto (potência predita)

BDJ (CAE curto)

  • US (instável): 5.067,8 ± 387,8 W → 5.109,5 ± 384,0 W (+0,8%, sem melhora significativa)

  • ST (estável): 5.156,3 ± 642,8 W → 5.324,1 ± 602,6 W (+3,2%, melhora significativa)
    Além da melhora interna, o ganho do ST foi superior ao US.

CMJ (CAE longo)

  • US (instável): 5.088,6 ± 390,6 W → 5.088,6 ± 404,1 W (0,0%, sem melhora)

  • ST (estável): 5.174,5 ± 588,7 W → 5.302,7 ± 545,8 W (+2,4%, melhora significativa)
    Novamente, o ST melhorou mais do que o US.

Interpretação estritamente baseada nos resultados: em atletas treinados, a inclusão sistemática de UST em exercícios suplementares de membros inferiores foi associada a ausência de ganhos detectáveis em potência predita de salto, enquanto o treinamento equivalente em superfície estável exibiu melhoras pequenas, porém estatisticamente significativas, em marcadores tanto de CAE curto quanto de CAE longo.

2) Velocidade de sprint (40 e 10 jardas)

40 jardas

  • US: 5,02 ± 0,11 s → 4,93 ± 0,11 s (−1,8%, melhora significativa)

  • ST: 5,06 ± 0,24 s → 4,87 ± 0,16 s (−3,9%, melhora significativa)
    O grupo ST apresentou melhora significativamente maior do que o US.

10 jardas

  • US: 1,73 ± 0,04 s → 1,67 ± 0,07 s (−4,0%, melhora significativa)

  • ST: 1,75 ± 0,09 s → 1,63 ± 0,08 s (−7,6%, melhora significativa)
    Os autores reportaram tendência para maior melhoria no ST (p ≈ 0,06), sem diferença estatisticamente confirmada no critério adotado.

Interpretação estritamente baseada nos resultados: ambos os grupos melhoraram a velocidade, porém o desempenho no sprint — especialmente em 40 jardas — foi mais favorecido pelo protocolo em superfície estável.

3) Agilidade (T-test)

  • US: 8,33 ± 0,15 s → 8,09 ± 0,21 s (−2,9%, melhora significativa)

  • ST: 8,42 ± 0,37 s → 8,06 ± 0,24 s (−4,4%, melhora significativa)
    Não houve diferença significativa entre grupos.

Interpretação estritamente baseada nos resultados: a agilidade melhorou em ambos os grupos, sem evidência estatística de superioridade de uma abordagem sobre a outra, apesar de a magnitude média favorecer o ST.

Síntese dos achados (efeito prático observado)

O padrão empírico foi consistente: quando o exercício suplementar de membros inferiores foi realizado em superfície instável, os ganhos em marcadores fortemente associados a produção rápida de força e ao uso do CAE (especialmente salto) foram atenuados em comparação ao treinamento equivalente em superfície estável. O efeito foi mais claro nos saltos e no sprint de 40 jardas; na aceleração inicial (10 jardas) houve melhora em ambos, com vantagem média do ST e tendência estatística; e na agilidade (T-test), apesar de melhorias, não se observou separação estatística entre grupos.

Conclusão derivada dos resultados do estudo

Em atletas saudáveis e treinados, a adoção sistemática de exercícios suplementares de membros inferiores em superfícies instáveis (discos infláveis), ao longo de 10 semanas, foi associada a menores melhorias (ou ausência de melhoria) em marcadores de potência de salto e velocidade, quando comparada a um protocolo equivalente em superfície estável, com volume controlado e prescrição de carga ajustada à condição de execução. Os dados sustentam a recomendação de cautela ao extrapolar recursos típicos de reabilitação para objetivos de desempenho atlético em populações treinadas.

Referência: Cressey EM, West CA, Tiberio DP, Kraemer WJ, Maresh CM. The effects of ten weeks of lower-body unstable surface training on markers of athletic performance. Journal of Strength and Conditioning Research. 2007;21(2):561–567.

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