Nas últimas semanas, vários alunos da graduação têm me procurado com uma dúvida bastante semelhante: como começar uma revisão de literatura para o TCC?
A dúvida é pertinente porque, frequentemente, o aluno recebe a orientação de “procurar artigos sobre o tema”, mas não necessariamente aprende como transformar essa procura em um procedimento organizado de investigação.
Esse é um ponto importante. Fazer uma revisão de literatura não significa simplesmente abrir o Google Scholar, pesquisar algumas palavras relacionadas ao assunto e começar a baixar artigos.
Uma revisão deve partir de uma pergunta, utilizar uma estratégia de busca minimamente organizada, estabelecer critérios para selecionar os estudos e, posteriormente, integrar as informações encontradas.
Em termos bastante simples, podemos pensar no processo da seguinte maneira:
Pergunta → Busca → Seleção → Extração dos dados → Comparação → Síntese → Conclusão
Para alunos de graduação que estão iniciando um TCC, compreender essa sequência já evita muitos dos problemas que aparecem posteriormente.
Um dos erros mais frequentes é começar a procurar artigos antes de definir claramente o que se pretende investigar.
Considere, por exemplo, um tema como:
“Treinamento de força e desempenho esportivo.”
Isso ainda não constitui uma pergunta adequada para uma revisão. O campo é enorme e envolve diferentes populações, métodos de treinamento e indicadores de desempenho.
Uma pergunta mais delimitada poderia ser:
“Quais são os efeitos do treinamento de força sobre a altura do salto vertical em jogadores de voleibol?”
Agora temos elementos que ajudam a direcionar a revisão: uma intervenção, uma variável de interesse e uma população.
Outro exemplo seria:
“Quais valores de altura de salto vertical são relatados em jogadores de basquetebol universitário?”
Nesse caso, não estamos necessariamente investigando o efeito de uma intervenção. Queremos caracterizar uma variável em determinada população.
Portanto, antes de qualquer busca, o aluno deveria ser capaz de responder:
O que exatamente quero descobrir com esta revisão?
Se essa resposta ainda estiver confusa, provavelmente ainda é cedo para começar a pesquisar os artigos.
Depois de definir a pergunta, precisamos identificar os principais conceitos envolvidos.
Tomemos novamente o exemplo:
“Quais são os efeitos do treinamento de força sobre a altura do salto vertical em jogadores de voleibol?”
Podemos identificar três grandes conceitos:
treinamento de força;
salto vertical;
voleibol.
Em seguida, devemos considerar que os autores podem utilizar diferentes termos para representar o mesmo conceito.
Por exemplo:
Treinamento de força
resistance training
strength training
Salto vertical
vertical jump
countermovement jump
CMJ
Voleibol
volleyball
volleyball players
Os operadores booleanos ajudam a combinar esses termos.
O operador OR geralmente é utilizado entre termos semelhantes ou sinônimos:
"resistance training" OR "strength training"
O operador AND é utilizado para combinar conceitos diferentes:
("resistance training" OR "strength training") AND ("vertical jump" OR "countermovement jump") AND volleyball
Essa estratégia não precisa ser extremamente sofisticada em um primeiro TCC. Entretanto, deve existir alguma lógica por trás da busca.
Pesquisar simplesmente “treinamento de força salto voleibol” e selecionar os primeiros artigos encontrados dificulta qualquer tentativa posterior de explicar como os estudos foram identificados.
Outra questão recorrente é a escolha das bases de dados.
Nas Ciências do Esporte, Exercício e Saúde, algumas bases frequentemente utilizadas são:
PubMed;
Scopus;
Web of Science;
SPORTDiscus.
Dependendo do tema, outras bases também podem ser pertinentes.
O Google Scholar pode ser útil como ferramenta complementar, particularmente para localizar estudos específicos ou ampliar uma busca. Entretanto, eu evitaria utilizá-lo como única fonte de pesquisa em um trabalho acadêmico quando outras bases estiverem disponíveis.
Independentemente das bases escolhidas, é importante registrar:
quais bases foram utilizadas;
quando a busca foi realizada;
quais termos foram pesquisados;
como os termos foram combinados.
Isso torna o processo mais transparente e permite que outra pessoa compreenda como os estudos foram encontrados.
Encontrar um artigo relacionado ao assunto não significa automaticamente que ele deva entrar na revisão.
Antes da seleção, devem ser estabelecidos critérios de inclusão e exclusão.
Suponha que nossa pergunta continue sendo relacionada ao efeito do treinamento de força sobre o salto de jogadores de voleibol.
Poderíamos estabelecer, por exemplo:
Critérios de inclusão
jogadores de voleibol;
participantes adultos;
estudos originais;
intervenções envolvendo treinamento de força;
avaliação do desempenho em salto vertical.
Critérios de exclusão
artigos de revisão;
estudos com crianças;
estudos exclusivamente com atletas de outras modalidades;
estudos que não avaliaram o salto;
trabalhos sem acesso às informações necessárias para a análise.
Os critérios dependerão da pergunta.
O ponto fundamental é que essas regras sejam definidas antes de começar a escolher quais estudos permanecerão na revisão.
Caso contrário, existe o risco de selecionar os artigos simplesmente porque seus resultados parecem interessantes ou porque confirmam aquilo que o pesquisador esperava encontrar.
Após realizar a busca, normalmente teremos mais artigos do que realmente serão utilizados.
Uma sequência simples seria:
Busca nas bases → remoção de duplicatas → leitura dos títulos → leitura dos resumos → leitura dos textos completos → estudos incluídos
Imagine, por exemplo, que as buscas retornaram:
420 registros inicialmente.
Após remover estudos duplicados:
310 registros.
Após avaliação de títulos e resumos:
40 artigos potencialmente relevantes.
Após a leitura dos textos completos:
18 estudos atendem aos critérios previamente estabelecidos.
Esses números são importantes e devem ser registrados.
Mesmo quando não estamos realizando uma revisão sistemática formal, documentar esse processo melhora consideravelmente a transparência do trabalho.
Também é importante compreender a função de cada etapa.
Título e resumo são muito úteis para excluir rapidamente estudos claramente inadequados.
Entretanto, a decisão definitiva de inclusão deve, sempre que possível, ocorrer após a avaliação do artigo completo.
Outro erro frequente ocorre quando o aluno encontra um artigo aparentemente importante e imediatamente começa a escrever sobre ele.
Depois encontra outro artigo e acrescenta outro parágrafo.
Posteriormente encontra um terceiro e faz a mesma coisa.
O resultado frequentemente é uma revisão formada por uma longa sucessão de resumos individuais.
Uma alternativa muito melhor é organizar primeiro os artigos selecionados.
Uma planilha simples já resolve grande parte do problema.
Algumas colunas poderiam conter:
| Estudo | Amostra | Desenho | Intervenção ou avaliação | Variáveis | Principais resultados |
|---|
Dependendo da pergunta da revisão, outras informações poderão ser acrescentadas:
idade dos participantes;
sexo;
nível de treinamento;
modalidade esportiva;
duração da intervenção;
frequência de treinamento;
intensidade;
número de séries;
número de repetições;
equipamento utilizado;
protocolo de avaliação;
média e desvio-padrão;
resultados estatísticos.
Essa etapa é extremamente importante porque transforma um conjunto de PDFs em um conjunto organizado de dados.
Somente depois disso o aluno começa efetivamente a enxergar o que a literatura está mostrando.
Depois de organizar os dados, começam as perguntas mais interessantes.
Os estudos encontraram resultados semelhantes?
Existem resultados divergentes?
As populações estudadas são semelhantes?
As intervenções foram comparáveis?
Os métodos utilizados para avaliar os resultados foram iguais?
Os participantes apresentavam níveis de treinamento diferentes?
As diferenças metodológicas poderiam explicar resultados aparentemente contraditórios?
Esse processo é muito mais importante do que simplesmente contabilizar quantos estudos apresentaram resultado “positivo” ou “negativo”.
Dois estudos podem investigar aparentemente a mesma questão e utilizar protocolos completamente diferentes.
Se não observarmos essas diferenças, podemos produzir uma conclusão inadequada.
Existe uma diferença importante entre resumir artigos e revisar uma literatura.
Um texto construído dessa maneira é comum:
“Silva et al. encontraram aumento no salto. Souza et al. também observaram melhora. Pereira et al. não encontraram diferenças. Oliveira et al. verificaram aumento de 5%.”
O problema não é necessariamente que essas informações estejam erradas.
O problema é que o autor ainda não realizou uma verdadeira síntese.
Uma redação mais adequada seria algo semelhante a:
“A maioria dos estudos identificou melhora do desempenho no salto vertical após intervenções de treinamento de força. Entretanto, a magnitude das adaptações variou consideravelmente entre os estudos. Diferenças na duração das intervenções, no nível inicial de treinamento e nos protocolos utilizados podem explicar parcialmente essa variabilidade.”
Depois dessa afirmação, os estudos são citados como evidências que sustentam a análise.
Essa é uma regra bastante útil para os alunos:
Primeiro diga o que o conjunto da literatura mostra. Depois apresente os estudos que sustentam essa interpretação.
Também é importante diferenciar a apresentação dos resultados da sua interpretação.
Nos resultados, o objetivo é mostrar aquilo que foi encontrado:
quantos estudos foram incluídos;
quem foram os participantes;
quais métodos foram utilizados;
quais resultados foram observados.
Na discussão, o objetivo muda.
Agora devemos interpretar:
o que esses resultados significam;
por que determinados estudos divergem;
quais limitações precisam ser consideradas;
quais conclusões podem ou não ser sustentadas;
quais aplicações podem ser extraídas.
Essa distinção ajuda muito na organização do TCC.
Não.
Esse é outro ponto que merece atenção.
Uma revisão sistemática possui exigências metodológicas específicas e deve seguir um processo muito mais rigoroso de planejamento, busca, seleção e avaliação das evidências.
Em muitos TCCs de graduação, uma revisão narrativa estruturada ou outro desenho de revisão pode ser perfeitamente adequado ao objetivo proposto.
O problema não está em fazer uma revisão mais simples.
O problema está em chamar de “revisão sistemática” um trabalho que não utilizou procedimentos compatíveis com esse tipo de estudo.
Portanto, primeiro devemos definir o objetivo e o método. O nome da revisão vem depois.
Para os alunos que estão iniciando, sugiro responder primeiro às seguintes perguntas:
Qual é a pergunta da minha revisão?
Qual é a população que pretendo estudar?
Qual variável, intervenção ou fenômeno quero investigar?
Quais termos representam esses conceitos?
Quais bases de dados serão pesquisadas?
Quais estudos poderão ser incluídos?
Quais estudos deverão ser excluídos?
Quais informações precisarei retirar de cada artigo?
Como vou comparar os estudos?
Minha conclusão realmente responderá à pergunta inicial?
Se essas questões estiverem bem definidas, boa parte do caminho metodológico já estará organizada.
Uma revisão de literatura não deveria começar com a pergunta:
“Quantos artigos preciso encontrar?”
Também não deveria começar com:
“Qual artigo posso usar para escrever a introdução?”
A primeira pergunta deveria ser:
“O que exatamente quero descobrir?”
A partir daí, buscamos as evidências, selecionamos os estudos de acordo com critérios previamente definidos, extraímos as informações relevantes, comparamos os resultados e construímos uma síntese.
Portanto, a lógica fundamental é:
Pergunta → Busca → Seleção → Extração dos dados → Comparação → Síntese → Conclusão
Recentemente, preparei também um roteiro básico para ajudar alunos que estão começando esse processo. O material foi disponibilizado no meu canal do Telegram e pode ser utilizado como uma ficha inicial de planejamento da revisão.
O mais importante, entretanto, não é seguir mecanicamente um formulário.
É compreender que uma boa revisão não é determinada pela quantidade de artigos encontrados, mas pela coerência entre a pergunta proposta, a forma como as evidências foram buscadas e selecionadas e a interpretação que fazemos dos estudos disponíveis.