As redes sociais modificaram profundamente a forma como o conhecimento é produzido, divulgado e consumido. Atualmente, qualquer pessoa pode criar um perfil, publicar conteúdos e alcançar milhares de seguidores sem depender de uma instituição, de uma editora ou dos meios tradicionais de comunicação.
Essa transformação apresenta aspectos positivos. Pesquisadores, professores e profissionais podem divulgar conhecimento diretamente ao público, ampliar o acesso à informação e estabelecer debates que antes permaneciam restritos aos ambientes acadêmicos.
Entretanto, o mesmo sistema que democratizou a comunicação também permitiu o surgimento de autoridades autodeclaradas. Em muitos casos, a competência passou a ser inferida pelo número de seguidores, pela frequência das publicações, pela desenvoltura diante das câmeras ou pela segurança com que uma afirmação é apresentada.
A audiência, porém, mede alcance. Não mede necessariamente conhecimento, experiência ou competência.
Nas redes sociais, é possível encontrar pessoas que se apresentam como professores sem formação específica para a docência e sem experiência regular em cursos de graduação ou pós-graduação.
Evidentemente, o termo “professor” pode ser utilizado em diferentes contextos. Uma pessoa pode ministrar cursos livres, palestras, treinamentos ou aulas particulares sem pertencer formalmente a uma universidade. Isso não significa que sua atividade seja necessariamente inválida.
O problema aparece quando a apresentação pessoal procura produzir a impressão de uma autoridade acadêmica que não corresponde à trajetória efetivamente construída.
Dar uma palestra não é equivalente a exercer a docência. Gravar aulas não representa, por si só, experiência educacional sistemática. Ministrar conteúdos em redes sociais também não envolve necessariamente elaboração curricular, avaliação da aprendizagem, orientação de estudantes, participação em bancas, atualização bibliográfica ou responsabilidade institucional.
A docência, especialmente no ensino superior, não consiste apenas em falar diante de um público. Ela envolve domínio do conteúdo, organização pedagógica, acompanhamento da aprendizagem, avaliação, responsabilidade ética e submissão contínua ao julgamento de estudantes, pares e instituições.
Portanto, o problema não está em compartilhar conhecimento fora da universidade. Está em utilizar uma designação profissional de forma a sugerir uma experiência que não pode ser demonstrada.
Outro fenômeno frequente é a crítica contundente a artigos científicos realizada por pessoas que nunca conduziram uma pesquisa ou participaram de maneira substancial de uma publicação científica.
Novamente, é necessário fazer uma distinção importante: ninguém precisa ter publicado um artigo para poder lê-lo, analisá-lo ou questioná-lo. Um argumento não se torna correto apenas porque foi apresentado por um pesquisador, assim como uma crítica não se torna automaticamente incorreta porque foi apresentada por alguém sem produção científica.
Restringir a crítica apenas a pesquisadores seria uma forma inadequada de apelo à autoridade.
Entretanto, a ausência de experiência científica pode limitar a compreensão sobre como uma pesquisa é efetivamente realizada. Existe uma diferença considerável entre conhecer conceitos metodológicos de maneira abstrata e enfrentar concretamente as dificuldades de elaboração de um projeto, recrutamento de participantes, controle experimental, coleta de dados, análise estatística, redação científica, submissão editorial e revisão por pares.
Também existe diferença entre identificar uma limitação real e concluir que o estudo inteiro não possui valor. Todo trabalho científico apresenta limitações. O julgamento adequado depende de analisar se essas limitações comprometem completamente as conclusões, restringem sua generalização ou apenas indicam que os resultados devem ser interpretados com cautela.
Uma pessoa pode memorizar uma lista de possíveis vieses metodológicos e utilizá-la para atacar praticamente qualquer pesquisa. Isso não significa que esteja realizando uma análise científica competente. A crítica precisa considerar o delineamento, a pergunta investigada, as características da amostra, as medidas utilizadas, a magnitude dos efeitos, a incerteza das estimativas e a coerência entre os resultados e as conclusões.
Criticar um artigo não é simplesmente localizar imperfeições. É avaliar tecnicamente o que os dados permitem ou não concluir.
Também se tornou comum encontrar influenciadores explicando como os cientistas deveriam investigar determinado fenômeno, quais análises deveriam empregar, quais variáveis deveriam controlar e quais conclusões deveriam apresentar.
Em alguns casos, essas prescrições são feitas sem que a pessoa tenha elaborado um projeto científico, submetido uma pesquisa a um comitê de ética, participado de uma coleta de dados, conduzido uma análise estatística ou respondido aos questionamentos de revisores.
Na teoria, todas as variáveis podem parecer controláveis. Na prática, a pesquisa é limitada por questões éticas, técnicas, financeiras, temporais e operacionais. Amostras ideais nem sempre são acessíveis. Alguns procedimentos não podem ser realizados em seres humanos. Determinadas medidas possuem erro inevitável. Existem conflitos entre validade interna, validade externa e viabilidade experimental.
Reconhecer essas restrições não significa aceitar pesquisas inadequadas. Significa compreender que a qualidade científica não pode ser avaliada com base em um experimento idealizado que seria impossível de executar.
Quem nunca participou do processo pode acreditar que a ciência consiste apenas em aplicar um método supostamente perfeito. Quem realiza pesquisa sabe que parte importante do trabalho está em tomar decisões justificáveis diante de condições imperfeitas e declarar com transparência as limitações decorrentes dessas decisões.
As redes sociais favorecem mensagens rápidas, categóricas e emocionalmente envolventes. Explicações condicionais, incertezas estatísticas e limitações metodológicas são menos atraentes do que afirmações definitivas.
Nesse ambiente, admitir dúvida pode ser interpretado como fraqueza, enquanto falar com segurança pode ser confundido com conhecimento.
Essa associação é problemática. A confiança demonstrada por uma pessoa não constitui evidência de que ela esteja correta. Pesquisas sobre autoavaliação mostram que indivíduos com desempenho mais baixo em determinadas tarefas podem apresentar dificuldade para reconhecer suas próprias limitações, embora as explicações e a extensão desse fenômeno devam ser interpretadas com cautela. O conhecido trabalho de Kruger e Dunning não permite concluir genericamente que toda pessoa incompetente seja excessivamente confiante. O fenômeno está relacionado a competências específicas e não deve ser utilizado como um rótulo para desqualificar qualquer interlocutor.
O ponto central é mais simples: autoconfiança e competência são variáveis diferentes. Uma pessoa pode falar de maneira hesitante e apresentar uma análise tecnicamente correta. Outra pode falar de forma extremamente convincente e estar conceitualmente equivocada.
Estudos sobre influenciadores indicam que a percepção de credibilidade está associada a características como expertise aparente, confiabilidade, autenticidade e familiaridade. Esses elementos ajudam a explicar por que o público estabelece relações de confiança com determinados produtores de conteúdo. Contudo, a percepção de expertise não é necessariamente equivalente à existência de competência verificável.
Uma pessoa que publica diariamente torna-se familiar. Uma linguagem simples aumenta a sensação de compreensão. Uma postura confiante produz segurança. A repetição de determinadas afirmações pode torná-las aparentemente verdadeiras.
Esses fatores influenciam a recepção da mensagem, mas não substituem a análise de sua validade.
A confiabilidade da fonte também interfere na maneira como as pessoas avaliam e atualizam suas crenças. Isso torna necessária uma avaliação mais criteriosa de quem está oferecendo a informação, especialmente quando o conteúdo envolve saúde, ciência, educação ou prescrição profissional.
A crítica à autoridade autodeclarada não deve conduzir ao extremo oposto: acreditar que diplomas, títulos ou publicações tornam uma pessoa automaticamente competente.
Existem profissionais titulados que apresentam deficiências conceituais, pesquisadores que extrapolam seus próprios resultados e professores que não acompanham o desenvolvimento de suas áreas. Uma publicação também não representa um certificado permanente de correção. Artigos podem conter limitações, erros e interpretações inadequadas.
Além disso, algumas pessoas desenvolvem conhecimento relevante fora dos percursos acadêmicos convencionais. Experiência profissional, estudo sistemático e produção técnica podem constituir formas legítimas de qualificação.
O ponto não é afirmar que apenas doutores podem falar sobre ciência ou que somente professores universitários podem ensinar. O ponto é exigir correspondência entre a autoridade reivindicada e as evidências apresentadas para sustentá-la.
Quanto maior a autoridade reivindicada, maior deveria ser a possibilidade de examinar sua formação, sua experiência e sua produção.
Os argumentos devem ser examinados pelas evidências que os sustentam. Uma afirmação correta não se torna falsa porque foi apresentada por alguém sem diploma. Da mesma forma, uma afirmação incorreta não se torna verdadeira porque foi apresentada por um professor ou pesquisador reconhecido.
Contudo, quando o público não possui conhecimento suficiente para avaliar diretamente todos os aspectos de uma explicação, a trajetória da fonte passa a constituir um elemento relevante.
Nesse caso, algumas perguntas podem ajudar:
Qual é a formação dessa pessoa na área sobre a qual se pronuncia?
Ela possui experiência concreta com aquilo que ensina?
Sua atuação profissional pode ser verificada?
Já participou de pesquisas ou publicações relacionadas ao tema?
Apresenta referências que permitem conferir suas afirmações?
Distingue dados, interpretações e opiniões?
Reconhece incertezas e limitações?
Corrige publicamente os próprios erros?
Critica argumentos ou apenas desqualifica pessoas?
Essas perguntas não fornecem uma garantia absoluta de correção. Elas apenas reduzem a probabilidade de confundir visibilidade com competência.
As redes sociais não deveriam ser espaços exclusivos de pesquisadores ou professores universitários. A pluralidade de participantes pode favorecer o debate, ampliar a divulgação científica e aproximar o conhecimento da sociedade.
Essa abertura, porém, não elimina a necessidade de responsabilidade.
Apresentar-se como professor, especialista ou autoridade científica produz expectativas. Quanto mais fortes forem as credenciais reivindicadas, mais legítimo será verificar se elas correspondem à trajetória profissional, acadêmica e científica da pessoa.
Ler artigos não equivale a realizar pesquisa. Ministrar uma palestra não equivale a exercer a docência. Produzir conteúdo não equivale a produzir conhecimento científico. Ter seguidores não equivale a ter experiência. Falar com segurança não equivale a estar correto.
Nada disso impede que pessoas sem formação acadêmica contribuam para uma discussão. Impede apenas que audiência, autoconfiança e autopromoção sejam tratadas como substitutos da competência.
Na ciência e na educação, a autoridade não deveria depender apenas daquilo que alguém declara ser. Ela deveria ser sustentada pelo que essa pessoa estudou, realizou, produziu e demonstrou ao longo de sua trajetória.