Análise da carga mecânica na articulação do joelho e na coluna vertebral em diferentes profundidades do agachamento

  • 04-01-2026

1. Introdução

O agachamento é amplamente utilizado no treinamento de força com objetivos de hipertrofia e de desenvolvimento da força máxima e da potência. Recomendações tradicionais sugerem a limitação da flexão do joelho, sob o argumento de que amplitudes maiores aumentariam o risco de lesões na articulação do joelho e na coluna vertebral. Essas recomendações, contudo, baseiam-se em análises biomecânicas parciais, frequentemente desconsiderando fenômenos como o efeito de envolvimento tendíneo, o contato entre tecidos moles e as adaptações estruturais induzidas pelo treinamento crônico. O objetivo da revisão foi avaliar, à luz da literatura científica, se agachamentos com menor flexão de joelho (meio e quarto agachamento) são de fato mais seguros do que o agachamento profundo.


2. Metodologia da busca na literatura

Foi realizada uma revisão narrativa da literatura por meio da base PubMed, abrangendo publicações entre março de 2011 e janeiro de 2013. Foram incluídos estudos biomecânicos, experimentais in vivo e ex vivo, análises por modelagem matemática, estudos de adaptação tecidual e investigações epidemiológicas. Mais de 160 artigos foram considerados. Estudos envolvendo apenas agachamentos com o peso corporal em amplitudes parciais foram excluídos quando não permitiam estimativas realistas de cargas articulares máximas.


3. Carga mecânica no joelho durante diferentes profundidades de agachamento

3.1 Articulação patelofemoral e tibiofemoral

Os dados analisados indicam que as maiores forças compressivas e os maiores estresses na articulação patelofemoral ocorrem em torno de 80–90° de flexão do joelho. A partir desse ponto, com o aumento da flexão, observa-se um aumento progressivo da área de contato articular, associado ao efeito de envolvimento do tendão do quadríceps e ao deslocamento cranial das superfícies de contato. Esses mecanismos promovem melhor distribuição da carga e redução do estresse compressivo.

Modelos que extrapolam forças calculadas em ângulos intermediários para amplitudes profundas não consideram adequadamente esses efeitos, o que limita a validade de estimativas de carga para flexões inferiores a aproximadamente 50°. Além disso, o contato entre a coxa e a panturrilha em grandes amplitudes contribui para a redução das forças tibiofemorais e patelofemorais.

3.2 Influência da carga externa

Com a redução da profundidade do agachamento, aumenta significativamente a carga externa que pode ser movimentada. Estudos mostram que, em meio e quarto agachamento, indivíduos são capazes de levantar múltiplos da carga utilizada no agachamento profundo. Esse aumento de carga está associado a elevações proporcionais das forças compressivas no joelho, de modo que a menor amplitude não implica necessariamente menor estresse articular total.


4. Adaptações e possíveis danos à cartilagem e aos meniscos

Evidências experimentais indicam que a cartilagem articular e os meniscos apresentam capacidade adaptativa ao estímulo mecânico dinâmico. Estudos com atletas submetidos a treinamento sistemático em grandes amplitudes de movimento demonstram aumento da espessura da cartilagem, maior tolerância mecânica e ausência de maior prevalência de defeitos cartilaginosos quando comparados a indivíduos não treinados.

Em levantadores de peso, não se observa maior incidência de lesões meniscais ou degeneração articular associada ao uso crônico do agachamento profundo. Pelo contrário, a exposição regular à carga em amplitude completa parece favorecer manutenção da integridade estrutural desses tecidos.


5. Limiares de pressão da cartilagem: evidências in vitro e implicações in vivo

Estudos in vitro sugerem que cargas compressivas elevadas podem induzir danos celulares na cartilagem quando aplicadas de forma concentrada ou por impacto direto. Entretanto, os autores destacam que esses limiares não podem ser diretamente extrapolados para a condição in vivo, onde a carga é transmitida predominantemente por compressão hidrostática, com distribuição mais homogênea.

Além disso, atividades cotidianas, como levantar-se de uma cadeira ou aterrissar de um salto, já produzem níveis de pressão comparáveis ou superiores aos valores experimentais considerados críticos. Assim, não há evidência direta de que o agachamento profundo exceda, de forma isolada, a tolerância fisiológica da cartilagem articular.


6. Forças de cisalhamento tibiofemoral e comportamento dos ligamentos

As forças de cisalhamento anterior e posterior no joelho variam conforme a profundidade do agachamento, a carga utilizada e a velocidade de execução. Em geral, valores mais elevados de cisalhamento posterior são observados em amplitudes intermediárias, especialmente no meio agachamento, quando comparados ao agachamento profundo com cargas equivalentes.

As magnitudes dessas forças permanecem substancialmente abaixo da resistência tensional dos ligamentos cruzados em joelhos íntegros. Estudos longitudinais e transversais mostram que praticantes de treinamento de força apresentam maior estabilidade articular e, em alguns casos, maior área de seção transversal dos ligamentos, indicando adaptação estrutural ao estímulo mecânico crônico.


7. Propriedades mecânicas e adaptações dos tendões

Tendões, incluindo o tendão patelar e o tendão do quadríceps, respondem ao treinamento de força com aumentos de área de seção transversal e rigidez mecânica. Essas adaptações estão associadas a maior resistência à tração e menor risco de lesão a longo prazo.

A hipótese de que o agachamento profundo favoreceria tendinopatias por compressão excessiva não encontra suporte consistente na literatura. Evidências sugerem que a sobrecarga crônica inadequadamente dosada, e não a amplitude de movimento em si, é o principal fator associado a alterações patológicas do tendão.


8. Efeitos sobre a coluna vertebral

Não existem estimativas diretas das cargas máximas na coluna lombar em todas as profundidades de agachamento com cargas máximas. Contudo, extrapolações indicam que o uso de cargas muito elevadas em agachamentos parciais pode gerar compressões axiais significativamente maiores do que aquelas observadas no agachamento profundo.

Estudos com levantadores de peso mostram aumentos expressivos da densidade mineral óssea vertebral e ausência de maior prevalência de alterações degenerativas quando comparados a atletas de outras modalidades ou à população geral. Esses achados sugerem adaptação estrutural da coluna ao treinamento crônico de força.


9. Conclusão

Com base na literatura analisada, o agachamento profundo não apresenta maior risco de lesão para a articulação do joelho ou para a coluna vertebral quando comparado ao meio ou quarto agachamento. Pelo contrário, a combinação de menores cargas externas, maior área de contato articular e adaptações estruturais dos tecidos passivos tende a resultar em menor estresse mecânico global.

Desde que a técnica seja adequadamente aprendida, a progressão de carga seja criteriosa e haja supervisão qualificada, o agachamento profundo constitui um exercício eficaz e seguro, com potencial efeito protetor sobre o sistema musculoesquelético.


Referência
Hartmann H, Wirth K, Klusemann M. Analysis of the load on the knee joint and vertebral column with changes in squatting depth and weight load. Sports Medicine, 2013;43:993–1008.

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