Um conjunto de equipamentos e abordagens comerciais tem defendido que a execução de exercícios de força em condições instáveis aumentaria a ativação muscular — em especial de músculos estabilizadores e sinergistas — e, por consequência, poderia favorecer adaptações neuromusculares. No entanto, a literatura experimental disponível para sustentar essa hipótese é limitada e, em parte, inconsistente. Neste cenário, McBride, Cormie e Deane (2006) investigaram, em um exercício multiarticular estrutural, como a instabilidade imposta ao apoio plantar afeta variáveis mecânicas (força e taxa de desenvolvimento de força) e a atividade eletromiográfica (EMG) de músculos selecionados do membro inferior durante um agachamento isométrico.
O objetivo foi comparar o desempenho mecânico e a atividade muscular durante o agachamento isométrico executado em condição estável versus condição instável, avaliando se a instabilidade altera o pico de força (PF), a taxa de desenvolvimento de força (RFD) e a ativação muscular de músculos agonistas, antagonistas e sinergistas do movimento.
O estudo foi conduzido em sessão única, com medidas repetidas (cada participante realizou ambas as condições). A amostra foi composta por nove homens (estudantes universitários, fisicamente ativos e envolvidos em treinamento resistido recreacional), com média de 22,4 ± 2,7 anos, 175,61 ± 5,34 cm, 85,5 ± 19,14 kg e 15,06 ± 5,39% de gordura corporal.
O agachamento isométrico foi realizado sob uma barra fixa, com o joelho posicionado a 100°. Cada tentativa consistiu em uma contração isométrica máxima de 3 segundos. O estudo comparou:
Condição estável (S): participante em pé diretamente sobre a plataforma de força.
Condição instável (U): participante em pé sobre discos/bolas infláveis de equilíbrio posicionados sobre a plataforma de força, introduzindo instabilidade no apoio.
Os participantes realizaram 4 tentativas por condição, com 3 minutos de descanso entre tentativas, e um intervalo de 25 minutos entre as condições, além de aquecimento em cicloergômetro antes de cada bloco.
Um aspecto metodológico relevante foi a validação do aparato instável: os autores reportaram que uma força aplicada através do dispositivo instável foi equivalente à força aplicada diretamente na plataforma (regressão linear com R² = 1,0), sustentando que diferenças na curva força-tempo refletiriam mudanças reais na produção de força e não artefatos de medição.
1) Mecânica (plataforma de força, 1000 Hz):
Pico de força (PF): maior valor de força vertical ao longo dos 3 s de contração.
Taxa de desenvolvimento de força (RFD): média calculada nos primeiros 400 ms da curva força-tempo.
2) Atividade muscular (EMG, 1000 Hz, telemetria):
A EMG foi registrada em quatro músculos:
Vasto lateral (VL) e vasto medial (VM) (principais extensores do joelho, agonistas relevantes no agachamento),
Bíceps femoral (BF) (componente posterior da coxa, frequentemente associado a funções de estabilização e sinergia dependendo do padrão de ação),
Gastrocnêmio medial (G) (sinergista/estabilizador no complexo tornozelo-joelho).
O sinal foi retificado, filtrado e integrado; ao final, os autores utilizaram a EMG integrada média ao longo dos 3 s como indicador do nível de ativação durante a contração.
O estudo observou reduções claras e estatisticamente significativas na condição instável:
Pico de força (PF):
Estável: 2186,95 ± 377,34 N
Instável: 1189,68 ± 427,10 N
Redução relativa reportada: −45,6% na condição instável.
RFD (primeiros 400 ms):
Estável: 2689,32 ± 804,80 N·s⁻¹
Instável: 1599,11 ± 675,43 N·s⁻¹
Redução relativa reportada: −40,5% na condição instável.
Esses achados indicam que a instabilidade no apoio não apenas reduz a força máxima alcançada, como também compromete a capacidade de elevar a força rapidamente — um desfecho particularmente relevante quando se discute estímulos associados a adaptações neurais e ao desempenho em ações rápidas.
O padrão de EMG observado foi compatível com a queda da produção de força: na condição instável houve redução significativa da atividade dos agonistas avaliados (vasto lateral e vasto medial), sem evidências de aumento compensatório em BF e gastrocnêmio medial:
Vasto medial (VM):
Estável: 182,35 ± 63,28 µV
Instável: 119,56 ± 54,53 µV
Redução relativa reportada: −34,4%.
Vasto lateral (VL):
Estável: 206,72 ± 66,56 µV
Instável: 129,65 ± 53,83 µV
Redução relativa reportada: −37,3%.
Bíceps femoral (BF):
Estável: 38,90 ± 23,71 µV
Instável: 57,61 ± 33,19 µV
Diferença não significativa.
Gastrocnêmio medial (G):
Estável: 29,07 ± 17,74 µV
Instável: 28,53 ± 18,56 µV
Diferença não significativa.
Em termos práticos, os resultados não sustentaram a expectativa frequentemente divulgada de que a instabilidade aumentaria de modo relevante a ativação de músculos “estabilizadores” ou “sinergistas” durante o esforço máximo isométrico. Ao contrário, o que se observou foi uma redução da ativação dos principais agonistas concomitante à queda no desempenho mecânico.
Os autores destacaram que, na condição instável, a força obtida representou aproximadamente 54,4% da condição estável (tomando a condição estável como 100%). Com base em referências clássicas citadas no próprio artigo, eles argumentaram que tal magnitude de esforço poderia ser insuficiente para atender a requisitos de intensidade frequentemente associados a ganhos de força em contextos tradicionais de treinamento resistido, levantando dúvidas sobre a eficácia do treinamento em ambientes instáveis quando o objetivo principal é maximizar força.
Além disso, eles enfatizaram que, caso a instabilidade promovesse um benefício por “maior ativação”, isso deveria ser observável em níveis de EMG mais altos em músculos estabilizadores/sinergistas — o que não ocorreu neste experimento. Assim, na lógica interna do trabalho, a combinação de menor força, menor RFD e menor ativação dos agonistas do quadríceps reduz o suporte para a ideia de que a instabilidade, ao menos neste modelo de agachamento isométrico, ofereça um estímulo superior para força.
Algumas fronteiras interpretativas decorrem do próprio delineamento:
Natureza isométrica do teste: embora aumente a fidelidade da EMG e simplifique a interpretação da produção de força, a transferência para tarefas dinâmicas não é automática. Os autores mencionam a existência de correlações entre testes isométricos estruturais e desempenho dinâmico, mas isso não substitui a necessidade de confirmação direta em ações dinâmicas.
Tamanho amostral e perfil da amostra: o estudo envolveu nove homens jovens, treinando de modo recreacional. Isso limita a generalização para mulheres, idosos, atletas de alto rendimento ou populações clínicas.
Seleção muscular: a EMG foi coletada em quatro músculos. A ausência de diferenças em BF e gastrocnêmio não elimina a possibilidade de alterações em outros músculos estabilizadores (por exemplo, musculatura do tronco e quadril), que não foram medidos aqui.
Modelo específico de instabilidade: a instabilidade foi aplicada por meio de discos/bolas infláveis sob os pés. Outras formas de instabilidade podem produzir respostas diferentes.
Dentro do contexto experimental avaliado, os resultados sustentam que:
A instabilidade no apoio durante o agachamento isométrico reduz substancialmente a capacidade de produzir força máxima e de desenvolver força rapidamente.
A instabilidade não aumentou a ativação EMG dos músculos avaliados que poderiam ser interpretados como antagonistas/sinergistas, e ainda promoveu queda da ativação dos agonistas do quadríceps.
Quando o objetivo primário é força máxima ou expressão rápida de força, a condição instável — ao menos neste arranjo experimental — apresenta um perfil de estímulo menos intenso e, portanto, potencialmente menos adequado do que a condição estável.
Referência
McBride, J. M., Cormie, P., & Deane, R. (2006). Isometric squat force output and muscle activity in stable and unstable conditions. Journal of Strength and Conditioning Research, 20(4), 915–918.