A periodização tradicional ainda estrutura o treinamento moderno de endurance

  • 05-05-2026

O artigo de González Ravé, Walther e Sandbakk, publicado em 2026 no International Journal of Sports Physiology and Performance, não apresenta um experimento original, mas sim um comentário científico convidado sobre um tema central na teoria do treinamento: a permanência da periodização tradicional como modelo dominante no esporte de endurance de alto rendimento. Portanto, a interpretação correta do trabalho deve considerar sua natureza argumentativa e de síntese, não de ensaio experimental controlado.

A questão central discutida pelos autores é direta: por que a periodização tradicional continua sendo amplamente utilizada por treinadores e atletas, mesmo após décadas de propostas alternativas, como a periodização em blocos e os modelos mais flexíveis de organização do treinamento? A resposta apresentada no artigo não é simplista. Os autores não defendem que a periodização tradicional seja necessariamente superior em todas as circunstâncias. Em vez disso, argumentam que sua persistência parece decorrer de uma combinação de tradição histórica, utilidade prática, compatibilidade com a fisiologia do endurance, clareza operacional e capacidade de adaptação quando aplicada por treinadores experientes.

A periodização tradicional, em sua formulação clássica, deriva das ideias de Lev Matveev e organiza o treinamento em ciclos de diferentes escalas temporais, como macrociclos, mesociclos e microciclos. Sua característica mais conhecida é a progressão planejada de uma fase inicial com maior volume e menor intensidade para fases posteriores com menor volume, maior intensidade e maior especificidade competitiva. Essa lógica busca preparar o atleta para atingir o melhor desempenho em momentos previamente definidos da temporada. Segundo os autores, esse modelo ainda domina especialmente no nível do macrociclo anual, enquanto estratégias como a periodização em blocos ou a programação mais flexível podem ser incorporadas em escalas menores, como mesociclos e microciclos, para ajustes mais finos de carga, recuperação e especificidade.

Um ponto relevante do artigo é a distinção entre rigidez conceitual e uso prático. A periodização tradicional é frequentemente criticada por assumir que as adaptações fisiológicas ocorreriam em sequências previsíveis e em janelas temporais relativamente fixas. Essa crítica é pertinente, pois atletas não respondem de forma idêntica ao mesmo estímulo, e fatores como histórico de treinamento, lesões, doenças, calendário competitivo, disponibilidade para treinar, suporte interdisciplinar e resposta individual à carga podem modificar substancialmente o processo adaptativo. No entanto, os autores argumentam que a periodização tradicional utilizada no esporte de elite não costuma ser aplicada de forma mecânica. Ela funciona, em muitos casos, como uma estrutura de referência ampla, sobre a qual treinadores experientes fazem ajustes individualizados.

A permanência da periodização tradicional também é explicada por fatores históricos e culturais. O modelo tradicional foi incorporado durante décadas à formação de treinadores, aos currículos de cursos, à literatura técnica e à organização pedagógica do treinamento esportivo. Por ser frequentemente o primeiro modelo formal de periodização aprendido por treinadores, ele cria uma espécie de referência cognitiva inicial para a tomada de decisão. Além disso, muitos casos de sucesso em Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais foram obtidos dentro de estruturas compatíveis com a periodização tradicional. Isso reforçou sua credibilidade prática, mesmo que a superioridade científica desse modelo sobre todos os demais não esteja demonstrada de forma conclusiva.

Do ponto de vista operacional, a periodização tradicional apresenta vantagens evidentes. Ela permite dividir a temporada em fases com objetivos relativamente claros, facilita a comunicação entre treinadores, atletas e equipe de suporte, organiza a progressão do treinamento ao longo do ano e fornece uma lógica compreensível para a manipulação de volume, intensidade e especificidade. Os autores também destacam dois argumentos práticos ainda pouco investigados experimentalmente: a possível facilidade de reintegração do atleta após interrupções por lesão ou doença e a prevenção de um pico prematuro de desempenho. Em ambos os casos, trata-se mais de uma hipótese prática sustentada pela experiência de treinadores do que de uma conclusão definitivamente comprovada por estudos comparativos.

Na natação de elite, o artigo relata que a periodização tradicional parece ser o modelo predominante. Uma revisão sistemática com 19 estudos indicou que treinadores de natação de alto rendimento favorecem amplamente esse modelo. A organização típica envolve redução progressiva do volume total e aumento correspondente da intensidade à medida que as competições principais se aproximam. Essa estratégia é compatível com a necessidade de construir uma base ampla de endurance, técnica e capacidade específica antes do refinamento da velocidade e do desempenho competitivo. No panorama descrito pelos autores, nadadores de elite costumam acumular aproximadamente 1000 a 1200 horas de treinamento por ano, com uma estrutura composta por um ou dois macrociclos, período geral de preparação de dois a três meses, período competitivo de um a três meses e cerca de 15 a 25 dias de competição por ano. O artigo também menciona a presença frequente de dois a três camps de altitude por macrociclo, com duração aproximada de três semanas.

No ciclismo competitivo, a situação é mais heterogênea. A revisão citada pelos autores incluiu sete estudos com ciclistas treinados. Quatro estudos empregaram ou descreveram uma abordagem tradicional, enquanto três compararam a periodização tradicional com alternativas, como a periodização em blocos ou a programação diária. A principal conclusão foi que não há evidência conclusiva de superioridade clara da periodização tradicional ou da periodização em blocos nesse contexto. Alguns dados sugerem vantagem de curto prazo para a periodização em blocos em ciclistas, mas isso não elimina a utilidade prática da periodização tradicional. No ciclismo, o calendário competitivo é mais extenso e individualizado, com aproximadamente 900 a 1100 horas anuais de treinamento, período geral de novembro a março, período competitivo de cerca de oito meses e 50 a 70 dias de competição por ano. Esse calendário favorece combinações entre uma estrutura anual tradicional e blocos concentrados de estímulo ou recuperação.

Na corrida de meio fundo e fundo, os autores descrevem uma forte presença da periodização tradicional. Revisões sobre corredores altamente treinados e de elite indicam que a maior parte dos programas segue uma lógica linear tradicional, com fases preparatória, pré competitiva e competitiva. O volume costuma ser mais alto no início da preparação e reduzido na fase competitiva, enquanto a distribuição da intensidade pode migrar de um perfil mais piramidal para um perfil mais polarizado conforme a competição se aproxima. Em corredores de longa distância de classe mundial, o treinamento geralmente se aproxima do modelo clássico de Matveev: maior volume de baixa intensidade na base e sessões mais específicas no ritmo de prova à medida que a competição se aproxima. Um dado importante é que esses atletas tendem a realizar aproximadamente 80% ou mais do volume total em baixa intensidade, enquanto as intensidades moderada e alta ocupam proporções menores, ajustadas conforme a fase da temporada. O artigo descreve ainda que corredores de elite costumam acumular aproximadamente 500 a 700 horas de treinamento por ano, com período geral de cerca de quatro meses, fase pré competitiva de 2,5 a quatro meses, período competitivo de três a quatro meses e 10 a 20 dias de competição anual.

No remo, a periodização tradicional também permanece relevante. Uma revisão sistemática com nove estudos sobre remadores de elite encontrou dois estudos que aplicaram explicitamente a periodização tradicional e relataram efeitos positivos em marcadores fisiológicos e desempenho. Outros estudos utilizaram periodização reversa, não adotaram uma estratégia formal ou não reportaram claramente o modelo de periodização utilizado. A interpretação dos autores é que a progressão ordenada de carga e recuperação característica da periodização tradicional pode favorecer o desenvolvimento da capacidade aeróbia e da potência, além de auxiliar no controle da fadiga para que o pico de desempenho ocorra no momento apropriado. No panorama anual apresentado, remadores de elite costumam realizar aproximadamente 750 a 850 horas de treinamento por ano, com preparação geral de outubro a meados de abril, período competitivo de 4,5 meses, 15 a 20 dias de competição anual e cerca de 25% do treinamento composto por atividades não diretamente classificadas como endurance.

No esqui cross country e no biatlo, os autores observam que não há uma revisão sistemática única que sintetize os padrões anuais de periodização. Ainda assim, estudos de caso e descrições longitudinais de atletas de nível nacional a mundial indicam que a maioria segue uma estrutura tradicional. O artigo menciona oito estudos relevantes que descreveram pelo menos uma temporada completa de treinamento, com predominância de padrões compatíveis com a periodização tradicional. Esse modelo parece se adaptar tanto a especialistas em provas de sprint quanto a especialistas em provas de distância. O volume anual típico é descrito como aproximadamente 850 a 1050 horas, com preparação geral de maio a meados de novembro, período competitivo de 4,5 meses e 25 a 35 dias de competição por ano. Um ponto interessante é que atletas juniores parecem apresentar padrões de periodização menos pronunciados do que atletas seniores, possivelmente por menor necessidade de pico competitivo explícito, menor volume total de treinamento ou menor histórico de treinamento. Os autores deixam claro que essas explicações permanecem especulativas.

Além das evidências oriundas de estudos sobre modalidades específicas, o artigo discute pesquisas com treinadores de elite. Em um estudo citado, 12 treinadores noruegueses de classe mundial, atuantes em oito esportes olímpicos de endurance, relataram utilizar a periodização tradicional na organização da temporada. O padrão descrito foi o mesmo: início com maior volume e menor intensidade, seguido por aumento progressivo da intensidade e da especificidade competitiva. Esses treinadores não aplicavam a periodização tradicional de forma rígida. Eles ajustavam o planejamento em função de altitude, doenças, lesões, períodos com muitas competições e necessidades individuais. Esse detalhe é central: no esporte de elite, a periodização tradicional parece funcionar mais como uma arquitetura geral do planejamento do que como uma receita fixa.

O artigo também mostra que essa preferência pela periodização tradicional não está restrita aos esportes clássicos de endurance. Em estudos com treinadores europeus de sprint, aproximadamente metade dos treinadores olímpicos investigados relatou utilizar a periodização tradicional, enquanto a outra metade favorecia a periodização em blocos. Em uma amostra mais ampla com 31 treinadores europeus de elite no sprint, 45% relataram usar a periodização tradicional como estrutura principal. Esses achados indicam que, mesmo em modalidades com maior dependência de potência, velocidade e habilidade, muitos treinadores ainda consideram útil uma estrutura progressiva de organização da temporada.

Na natação, um levantamento transversal com 18 treinadores espanhóis de nível nacional mostrou que 35,3% usavam a periodização tradicional como principal modelo, 29,4% utilizavam periodização em blocos, e os demais adotavam modelos mistos, híbridos ou individualizados. Os treinadores que preferiam a periodização tradicional destacaram sua previsibilidade, progressão sistemática de carga e utilidade para o desenvolvimento técnico e aeróbio. Os que preferiam modelos em blocos ou híbridos enfatizaram a necessidade de adaptação a calendários competitivos mais densos e o possível benefício de concentrar estímulos para ganhos específicos. Esse resultado reforça a conclusão geral do artigo: a prática contemporânea não deve ser entendida como uma disputa binária entre modelos, mas como uma combinação de estruturas.

Uma contribuição importante do texto é questionar a tentativa de eleger um único “melhor” modelo de periodização. Essa é uma discussão pouco produtiva quando isolada do contexto. A escolha do modelo depende da modalidade, do calendário, do nível competitivo, da idade do atleta, do histórico de treinamento, da necessidade de múltiplos picos, das interrupções por lesão ou doença e da capacidade de monitoramento da carga. A periodização tradicional pode ser útil em contextos que exigem planejamento de longo prazo, comunicação clara e desenvolvimento progressivo. A periodização em blocos pode ser útil quando há necessidade de concentrar estímulos específicos em períodos curtos. Modelos flexíveis podem ser necessários quando a resposta individual do atleta exige ajustes frequentes. A implicação prática é que o treinador não deve aderir a um modelo por tradição ou moda, mas compreender a lógica de cada estratégia e sua adequação ao problema concreto.

O artigo também reconhece limitações importantes. A síntese apresentada é fortemente baseada em contextos europeus e ocidentais. Os próprios autores destacam que uma visão global da periodização precisaria integrar melhor experiências de sistemas centralizados, como China e Japão, e culturas de treinamento baseadas em grupos, como aquelas observadas em corredores do Leste Africano. Essa observação é metodologicamente relevante, porque modelos de treinamento não são apenas construções fisiológicas; eles também são influenciados por cultura esportiva, organização institucional, tradição de formação de treinadores, infraestrutura, disponibilidade de atletas e calendário competitivo.

Outro ponto crítico é a necessidade de mais estudos longitudinais comparativos. A literatura ainda não permite concluir, com segurança, que um modelo seja superior ao outro em todos os esportes e contextos. Os autores sugerem que pesquisas futuras devem comparar diferentes estratégias de periodização em contextos aplicados específicos, incluindo temporadas com múltiplos picos, desenvolvimento de jovens atletas e retorno após lesão. Essa recomendação é importante porque muitos debates sobre periodização ainda se apoiam em estudos curtos, desenhos pouco ecológicos ou inferências derivadas de práticas observacionais.

A conclusão prática do artigo é que a periodização tradicional não deve ser descartada como ultrapassada. Seu valor atual não está na rigidez, mas na possibilidade de funcionar como uma estrutura ampla, simples, comunicável e adaptável. Quando aplicada com monitoramento adequado, individualização e ajustes contextuais, ela continua oferecendo uma base funcional para o planejamento do treinamento de endurance. Ao mesmo tempo, o artigo não sustenta que a periodização tradicional seja sempre superior à periodização em blocos ou aos modelos flexíveis. A posição mais precisa é que ela permanece relevante porque resolve problemas práticos reais: organiza o longo prazo, facilita a progressão, permite comunicação entre equipe e atleta e pode incorporar estratégias alternativas quando necessário.

Em termos de aplicação para treinadores, o principal ensinamento é que periodizar não significa apenas distribuir volume e intensidade em fases pré definidas. Periodizar significa organizar estímulos, recuperação, especificidade e competição dentro de uma lógica coerente com o calendário e com a resposta do atleta. A periodização tradicional continua sendo uma ferramenta útil porque oferece uma estrutura inicial robusta. No entanto, sua aplicação competente exige capacidade de ajuste. Portanto, o problema não é usar ou não usar a periodização tradicional, mas aplicá-la sem compreensão dos mecanismos fisiológicos, das demandas da modalidade e da individualidade do atleta.

O artigo, portanto, contribui para uma interpretação mais equilibrada da periodização no esporte contemporâneo. A tradição não deve ser aceita sem crítica, mas também não deve ser abandonada apenas porque novos modelos foram propostos. No estado atual da evidência, a periodização tradicional permanece como uma estrutura amplamente usada, pragmaticamente eficiente e compatível com muitas modalidades de endurance. Sua permanência parece refletir menos uma resistência à inovação e mais uma escolha estratégica baseada em experiência acumulada, simplicidade operacional e capacidade de integração com abordagens modernas.

Referência

González Ravé, J. M., Walther, J., & Sandbakk, Ø. Revisiting Tradition: Why the Traditional Periodization Still Shapes Modern Sport. International Journal of Sports Physiology and Performance. Publicado online em 17 de março de 2026. https://doi.org/10.1123/ijspp.2025-0598.

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