A carga de treinamento não determina a hipertrofia induzida pelo treinamento resistido

  • 01-01-2026

A carga de treinamento não determina a hipertrofia induzida pelo treinamento resistido

Um estudo recente publicado no The Journal of Physiology investigou se a magnitude da carga utilizada no treinamento resistido é determinante para a hipertrofia muscular em indivíduos jovens e saudáveis. Utilizando um desenho experimental rigoroso, com medidas em múltiplas escalas (corporal, muscular e celular), os autores demonstraram que a hipertrofia induzida pelo treinamento resistido ocorre de forma independente da carga externa quando o exercício é realizado até a fadiga voluntária .

Desenho experimental

Vinte homens jovens, recreacionalmente ativos e sem experiência prévia em treinamento resistido estruturado, participaram de um protocolo de 10 semanas, com três sessões semanais supervisionadas. Cada participante realizou exercícios unilaterais para membros superiores (flexão de cotovelo) e inferiores (extensão de joelho), sendo um membro treinado com carga elevada (70–80% de 1RM; 8–12 repetições) e o membro contralateral com carga reduzida (30–40% de 1RM; 20–25 repetições). Em ambos os casos, todas as séries foram executadas até a fadiga voluntária.

A hipertrofia muscular foi avaliada por diferentes métodos: massa magra apendicular por DXA, área de secção transversa e espessura muscular por ultrassonografia, além de área de secção transversa de fibras musculares obtidas por biópsia. Adicionalmente, a síntese proteica miofibrilar foi quantificada por meio de água duplamente marcada (D₂O), permitindo avaliar respostas metabólicas integradas ao longo do período de treinamento .

Principais resultados

Os resultados mostraram aumento significativo da massa muscular e do tamanho das fibras musculares após as 10 semanas de treinamento, tanto nos membros superiores quanto nos inferiores. Contudo, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os protocolos de alta e baixa carga para nenhuma das variáveis de hipertrofia, independentemente do método de avaliação utilizado.

Além disso, a variabilidade da resposta hipertrófica foi substancialmente maior entre indivíduos do que entre diferentes membros do mesmo indivíduo. Em outras palavras, sujeitos que responderam mais intensamente ao treinamento em um segmento corporal tenderam a apresentar respostas semelhantes em outros segmentos, independentemente da carga utilizada. Esses achados indicam uma forte conservação intraindividual da resposta ao treinamento resistido.

Síntese proteica miofibrilar

A taxa de síntese proteica miofibrilar aumentou de forma acentuada nas fases iniciais do treinamento, mas apresentou atenuação após 10 semanas, mesmo com progressão de carga. Importante destacar que não houve diferença entre cargas altas e baixas em nenhuma das fases avaliadas, reforçando a ideia de que a magnitude da carga externa não é o principal fator modulador da resposta hipertrófica quando o esforço é controlado pela fadiga voluntária .

Implicações científicas

Os dados sustentam a interpretação de que a hipertrofia induzida pelo treinamento resistido é mediada predominantemente por fatores endógenos, próprios do indivíduo, e não pela carga absoluta utilizada no exercício. A manipulação da carga, portanto, exerce papel limitado quando o treinamento é conduzido com elevado nível de esforço.

Esses achados reforçam evidências anteriores de que diferentes zonas de carga podem resultar em adaptações morfológicas semelhantes, desde que o estímulo mecânico seja suficiente para recrutar amplamente as unidades motoras e gerar fadiga muscular. Assim, a heterogeneidade observada nas respostas hipertróficas parece refletir, em grande parte, características biológicas individuais, e não escolhas metodológicas simples como “treinar pesado” ou “treinar leve”.

Referência

Lees MJ, McLeod JC, Morton RW, et al. Resistance training load does not determine resistance training-induced hypertrophy across upper and lower limbs in healthy young males. The Journal of Physiology, 2025.

Autor :